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Chaui, Marilena. Contra a violência,http://www.pt.org.br,
31/03/2007
1. Ética, violência e racismo
Numa perspectiva geral, podemos dizer que a ética procura
definir, antes de mais nada, a figura do agente ético e de
suas ações e o conjunto de noções (ou
valores) que balizam o campo de uma ação que se considere
ética. O agente ético é pensado como sujeito
ético, isto é, como um ser racional e consciente que
sabe o que faz, como um ser livre que decide e escolhe o que faz,
e como um ser responsável que responde pelo que faz. A ação
ética é balizada pelas idéias de bom e mau,
justo e injusto, virtude e vício, isto é, por valores
cujo conteúdo pode variar de uma sociedade para outra ou
na história de uma mesma sociedade, mas que propõem
sempre uma diferença intrínseca entre condutas, segundo
o bem, o justo e o virtuoso. Assim, uma ação só
será ética se for consciente, livre e responsável
e só será virtuosa se for realizada em conformidade
com o bom e o justo. A ação ética só
é virtuosa se for livre e só será livre se
for autônoma, isto é, se resultar de uma decisão
interior ao próprio agente e não vier da obediência
a uma ordem, a um comando ou a uma pressão externos. Enfim,
a ação só é ética se realizar
a natureza racional, livre e responsável do agente e se o
agente respeitar a racionalidade, liberdade e responsabilidade dos
outros agentes, de sorte que a subjetividade ética é
uma intersubjetividade. A ética não é um estoque
de condutas e sim uma práxis que só existe pela e
na ação dos sujeitos individuais e sociais, definidos
por formas de sociabilidade instituídos pela ação
humana em condições históricas determinadas.
A ética se opõe à violência, palavra
que vem do latim e significa: 1) tudo o que age usando a força
para ir contra a natureza de algum ser (é desnaturar); 2)
todo ato de força contra a espontaneidade, a vontade e a
liberdade de alguém (é coagir, constranger, torturar,
brutalizar); 3) todo ato de violação da natureza de
alguém ou de alguma coisa valorizada positivamente por uma
sociedade (é violar); 4) todo ato de transgressão
contra aquelas coisas e ações que alguém ou
uma sociedade define como justas e como um direito; 5) conseqüentemente,
violência é um ato de brutalidade, sevícia e
abuso físico e/ou psíquico contra alguém e
caracteriza relações intersubjetivas e sociais definidas
pela opressão, intimidação, pelo medo e pelo
terror.
A violência se opõe à ética porque trata
seres racionais e sensíveis, dotados de linguagem e de liberdade
como se fossem coisas, isto é, irracionais, insensíveis,
mudos, inertes ou passivos. Na medida em que a ética é
inseparável da figura do sujeito racional, voluntário,
livre e responsável, tratá-lo como se fosse desprovido
de razão, vontade, liberdade e responsabilidade é
tratá-lo não como humano e sim como coisa, fazendo-lhe
violência nos cinco sentidos em que demos a esta palavra.
É sob este aspecto (entre outros, evidentemente), que o racismo
é definido como violência. Não é demais
lembrar quando essa idéia aparece.
De fato, não se sabe muito bem qual é a origem da
palavra "raça" - os antigos gregos falavam em etnia
e genos, os antigos hebreus, em povo, os romanos, em nação;
e essas três palavras significavam o grupo de pessoas descendentes
dos mesmos pais originários. Alguns dicionários indicam
que, no século XII, usava-se a palavra francesa "haras"
para se referir à criação de cavalos especiais
e pode-se supor que seu emprego se generalizou para outros animais
e para vegetais, estendendo-se depois aos humanos, dando origem
à palavra "raça". Outros julgam que a palavra
se deriva de um vocábulo italiano, usado a partir do século
XV, "razza", significando espécie animal e vegetal
e, posteriormente, estendendo-se para as famílias humanas,
conforme sua geração e a continuidade de suas características
físicas e psíquicas (ou seja, ganhando o sentido das
antigas palavras etnia, genos e nação). Quando, no
século XVI, para seqüestrar as fortunas das famílias
judaicas da Península Ibérica, a fim de erguer um
poderio náutico para criar impérios ultramarinos,
a Inquisição inventou a expressão "limpeza
de sangue", significando a conversão dos judeus ao cristianismo.
Com isso, a distinção religiosa, que separava judeus
e cristãos, recebeu pela primeira vez um conteúdo
étnico.
É interessante observar, porém, que a palavra "racial"
surge apenas no século XIX, particularmente com a obra do
francês Gobineau, que, inspirando-se na obra de Darwin, introduziu
formalmente o termo "raça" para combater todas
formas de miscigenação, estabelecendo distinções
entre raças inferiores e superiores, a partir de características
supostamente naturais. E, finalmente, foi apenas no século
XX que surgiu a palavra "racismo", que, conforme Houaiss,
é uma crença fundada numa hierarquia entre raças,
uma doutrina ou sistema político baseado no direito de uma
raça, tida como pura e superior, de dominar as demais. Com
isso, o racismo se torna preconceito contra pessoas julgadas inferiores
e alimenta atitudes de extrema hostilidade contra elas, como a separação
ou o apartamento total - o apartheid - e a destruição
física do genos, isto é, o genocídio.
Seja no caso ibérico, seja no da colonização
das Américas, seja no de Gobineau, seja no do apartheid,
no do genocídio praticado pelo nazismo contra judeus, ciganos,
poloneses e tchecos, ou o genocídio atual praticado pelos
dirigentes do Estado de Israel contra os palestinos, a violência
racista está determinada historicamente por condições
materiais, isto é, econômicas e políticas. Em
outras palavras, o racismo é uma ideologia das classes dominantes
e dirigentes, interiorizada pelo restante da sociedade.
Ora, o fato de que no Brasil não tenha havido uma legislação
apartheid, nem formas de discriminação como as existentes
nos Estados Unidos, e que tenha havido miscigenação
em larga escala, faz supor que, entre nós, não há
racismo. O fato de que tenha sido necessária a promulgação
da Lei Afonso Arinos e que o racismo tenha sido incluído
pela Constituição de 1988 entre os crimes hediondos,
deve levar-nos a tratar a suposição da inexistência
do racismo num contexto mais amplo, qual seja, no de um mito poderoso,
o da não-violência brasileira. Trata-se da imagem de
um povo ordeiro, pacífico, generoso, alegre, sensual, solidário
que desconhece o racismo, o sexismo, o machismo e o preconceito
de classe, que respeita as diferenças étnicas, religiosas
e políticas, não discrimina as pessoas por sua posição
econômico-social nem por suas escolhas sexuais, etc.
2. O mito da não-violência brasileira
Por que mito? Porque:
a) um mito opera com antinomias, tensões e contradições
que não podem ser resolvidas sem uma profunda transformação
da sociedade no seu todo e que por isso são transferidas
para uma solução imaginária, que torna suportável
e justificável a realidade. Em suma, o mito nega e justifica
a realidade negada por ele;
b) um mito cristaliza-se em crenças que são interiorizadas
num grau tal que não são percebidas como crenças
e sim tidas não só como uma explicação
da realidade, mas como a própria realidade. Em suma, o mito
substitui a realidade pela crença na realidade narrada por
ele e torna invisível a realidade existente;
c) um mito resulta de ações sociais e produz como
resultado outras ações sociais que o confirmam, isto
é, um mito produz valores, idéias, comportamentos
e práticas que o reiteram na e pela ação dos
membros da sociedade. Em suma, o mito não é um simples
pensamento, mas formas de ação;
d) um mito tem uma função apaziguadora e repetidora,
assegurando à sociedade sua auto-conservação
sob as transformações históricas. Isto significa
que um mito é o suporte de ideologias: ele as fabrica para
que possa, simultaneamente, enfrentar as mudanças históricas
e negá-las, pois cada forma ideológica está
encarregada de manter a matriz mítica inicial. No nosso caso,
o mito fundador é exatamente o da não-violência
essencial da sociedade brasileira.
Muitos indagarão como o mito da não-violência
brasileira pode persistir sob o impacto da violência real,
cotidiana, conhecida de todos e que, nos últimos tempos,
é também ampliada por sua divulgação
e difusão pelos meios de comunicação de massa.
Ora, é justamente no modo de interpretação
da violência que o mito encontra meios para conservar-se.
Se fixarmos nossa atenção ao vocabulário empregado
pelos mass media, observaremos que os vocábulos se distribuem
de maneira sistemática:
- fala-se em chacina e massacre para referir-se ao assassinato em
massa de pessoas indefesas, como crianças, favelados, encarcerados,
sem-terra;
- fala-se em indistinção entre crime e polícia
para referir-se à participação de forças
policiais no crime organizado, particularmente o jogo do bicho,
o narcotráfico e os seqüestros;
- fala-se em guerra civil tácita para referir-se ao movimento
dos sem-terra, aos embates entre garimpeiros e índios, policiais
e narcotraficantes, aos homicídios e furtos praticados em
pequena e larga escala, mas também para referir-se ao aumento
do contingente de desempregados e habitantes das ruas, aos assaltos
coletivos a supermercados e mercados, e para falar dos acidentes
de trânsito;
- fala-se em fraqueza da sociedade civil para referir-se à
ausência de entidades e organizações sociais
que articulem demandas, reivindicações, críticas
e fiscalização dos poderes públicos;
- fala-se em debilidade das instituições políticas
para referir-se à corrupção nos três
poderes da república, à lentidão do poder judiciário,
à falta de modernidade política;
- fala-se, por fim, em crise ética.
Essas imagens têm a função de oferecer uma imagem
unificada da violência. Chacina, massacre, guerra civil tácita
e indistinção entre polícia e crime pretendem
ser o lugar onde a violência se situa e se realiza; fraqueza
da sociedade civil, debilidade das instituições e
crise ética são apresentadas como impotentes para
coibir a violência. As imagens indicam a divisão entre
dois grupos: de um lado, estão os grupos portadores de violência,
e de outro, os grupos impotentes para combatê-la.
Essas imagens baseiam-se em alguns mecanismos ideológicos
por meio dos quais se dá a conservação da mitologia.
O primeiro mecanismo é o da exclusão: afirma-se que
a nação brasileira é não-violenta e
que, se houver violência, esta é praticada por gente
que não faz parte da nação (mesmo que tenha
nascido e viva no Brasil). O mecanismo da exclusão produz
a diferença entre um nós-brasileiros-não-violentos
e um eles-não-brasileiros-violentos. "Eles" não
fazem parte do "nós".
O segundo é o da distinção: distingue-se o
essencial e o acidental, isto é, por essência, os brasileiros
não são violentos e, portanto, a violência é
acidental, um acontecimento efêmero, passageiro, uma "epidemia"
ou um "surto" localizado na superfície de um tempo
e de um espaço definidos, superável e que deixa intacta
nossa essência não-violenta.
O terceiro é jurídico: a violência fica circunscrita
ao campo da delinquência e da criminalidade, o crime sendo
definido como ataque à propriedade privada (furto, roubo
e latrocínio). Esse mecanismo permite, por um lado, determinar
quem são os "agentes violentos" (de modo geral,
os pobres e, entre estes, os negros) e legitimar a ação
da polícia contra a população pobre, os negros,
as crianças de rua e os favelados. A ação policial
pode ser, às vezes, considerada violenta, recebendo o nome
de "chacina" ou "massacre" quando, de uma só
vez e sem motivo, o número de assassinados é muito
elevado. No restante das vezes, porém, o assassinato policial
é considerado normal e natural, uma vez que se trata da proteger
o "nós" contra o "eles".
Finalmente, o último mecanismo é o da inversão
do real, graças à produção de máscaras
que permitem dissimular comportamentos, idéias e valores
violentos como se fossem não-violentos. Assim, por exemplo,
o machismo é colocado como proteção à
natural fragilidade feminina, proteção inclui a idéia
de que as mulheres precisam ser protegidas de si próprias,
pois, como todos sabem, o estupro é um ato feminino de provocação
e sedução; o paternalismo branco é visto como
proteção para auxiliar a natural inferioridade dos
negros, os quais, como todos sabem, são indolentes e safados;
a repressão contra os homossexuais é considerada proteção
natural aos valores sagrados da família e, agora, da saúde
e da vida de todo o gênero humano ameaçado pela Aids,
trazida pelos degenerados, etc..
No caso desse mecanismo de inversão, foi sintomática
a reação de uma parte da classe média diante
do Prouni. De fato, muitos disseram, pasmem!, que se tratava de
"opressão racial contra os brancos", no momento
da entrada na universidade, e de "estímulo ao ódio
contra os negros", durante a permanência universitária.
Em suma, o Prouni seria a criação do racismo no Brasil!
Mais clara e ainda mais paradigmática do mecanismo da inversão
é o que acaba de ocorrer com a Ministra Matilde Ribeiro pela
entrevista concedida à BBC: para puni-la por todas as políticas
de ações afirmativas e de criação democrática
de direitos sociais, econômicos e culturais, para puni-la
por sua luta contra a violência racial, os meios de comunicação
de massa tentam transformá-la em agente da violência.
Ora, ao isolar suas palavras do contexto, os defensores da "não-violência"
praticam uma ato de violência psíquica, intelectual
e política, pois deformam e traem o que ela disse. Usando
essa violência, declaram que não há racismo
no Brasil, a não ser este que, segundo eles, ela teria instituído.
E, suprema ironia, um dos jornais atacantes e pretensamente não
racista costumava referir-se a FHC como "presidente mulatre"!
Em resumo, no Brasil, a violência não é percebida
ali mesmo onde se origina e ali mesmo onde se define como violência
propriamente dita, isto é, como toda prática e toda
idéia que reduz um sujeito à condição
de coisa, que viola interior e exteriormente o ser de alguém,
que perpetua relações sociais de profunda desigualdade
econômica, social e cultural. Mais do que isto, a sociedade
não percebe que as próprias explicações
oferecidas são violentas porque está cega ao lugar
efetivo de produção da violência, isto é,
a estrutura da sociedade brasileira, que, em sua violência
cotidiana, reitera, alimenta e repete o mito da não-violência.
3. Uma sociedade violenta
Conservando as marcas da sociedade colonial escravista, a sociedade
brasileira é determinada pelo predomínio do espaço
privado (ou os interesses econômicos) sobre o público
e, tendo o centro na hierarquia familiar, é fortemente hierarquizada
em todos os seus aspectos: nela, as relações sociais
e intersubjetivas são sempre realizadas como relação
entre um superior, que manda, e um inferior, que obedece. As diferenças
e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades,
que reforçam a relação mando-obediência.
O outro jamais é reconhecido como sujeito nem como sujeito
de direitos, jamais é reconhecido como subjetividade nem
como alteridade. As relações, entre os que julgam
iguais, são de "parentesco", isto é, de
cumplicidade; e, entre os que são vistos como desiguais,
o relacionamento toma a forma do favor, da clientela, da tutela
ou da cooptação, e, quando a desigualdade é
muito marcada, assume a forma da opressão. Há, assim,
a naturalização das desigualdades econômicas
e sociais, do mesmo modo que há naturalização
das diferenças étnicas (consideradas desigualdades
raciais entre superiores e inferiores), religiosas e de gênero,
bem como naturalização de todas formas visíveis
e invisíveis de violência.
A violência está de tal modo interiorizada nos corações
e mentes que alguém pode usar a frase "um negro de alma
branca" e não ser considerado racista. Pode referir-se
aos serviçais domésticos com a frase "uma empregada
ótima: conhece seu lugar" e considerar-se isento de
preconceito de classe. Pode dizer, como disse certa vez Paulo Maluf,
"a professorinha não deve gritar por salário,
mas achar um marido mais eficiente" e não ser considerado
machista.
Podemos resumir, simplificadamente, os principais traços
de nossa violência social considerando a sociedade brasileira
oligárquica, autoritária, vertical, hierárquica,
polarizada entre a carência e o privilégio e com bloqueios
e resistências à instituição dos direitos
civis, econômicos, sociais e culturais.
Nossa sociedade conheceu a cidadania através de uma figura
inédita: o senhor (de escravos)-cidadão, e concebe
a cidadania com privilégio de classe, fazendo-a ser uma concessão
da classe dominante às demais classes sociais, podendo ser-lhes
retirada quando os dominantes assim o decidirem. O caso da mídia
contra a Ministra Matilde exprime exatamente essa idéia de
cidadania concedida e retirada ao sabor dos interesses dos dominantes.
Pelo mesmo motivo, no caso das camadas populares, os direitos, em
lugar de aparecerem como conquistas dos movimentos sociais organizados,
são sempre apresentados como concessão e outorga feitas
pelo Estado, dependendo da vontade pessoal ou do arbítrio
do governante.
Em nossa sociedade, as diferenças e assimetrias sociais e
pessoais são imediatamente transformadas em desigualdades,
e estas, em relação de hierarquia, mando e obediência.
Os indivíduos se distribuem imediatamente em superiores e
inferiores, ainda que alguém superior numa relação
possa tornar-se inferior em outras, dependendo dos códigos
de hierarquização que regem as relações
sociais e pessoais. Todas as relações tomam a forma
da dependência, da tutela, da concessão e do favor.
Isso significa que as pessoas não são vistas, de um
lado, como sujeitos autônomos e iguais, e, de outro, como
cidadãs e, portanto, como portadoras de direitos. É
exatamente isso que faz a violência ser a regra da vida social
e cultural. Violência tanto maior porque invisível
sob o paternalismo e o clientelismo, considerados naturais e, por
vezes, exaltados como qualidades positivas do "caráter
nacional".
Nela, as leis sempre foram armas para preservar privilégios
e o melhor instrumento para a repressão e a opressão,
jamais definindo direitos e deveres concretos e compreensíveis
para todos. Essa situação é claramente reconhecida
pelos trabalhadores quando afirmam que "a justiça só
existe para os ricos". O Poder Judiciário é claramente
percebido como distante, secreto, representante dos privilégios
das oligarquias e não dos direitos da generalidade social.
Para os grandes, a lei é privilégio; para as camadas
populares, repressão. A lei não figura o pólo
público do poder e da regulação dos conflitos,
nunca define direitos e deveres dos cidadãos porque, em nosso
país, a tarefa da lei é a conservação
de privilégios e o exercício da repressão.
Por este motivo, as leis aparecem como inócuas, inúteis
ou incompreensíveis, feitas para serem transgredidas e não
para serem transformadas - situação violenta que é
miticamente transformada num traço positivo, quando a transgressão
é elogiada como "o jeitinho brasileiro".
Em nossa sociedade, não existem nem a idéia nem a
prática da representação política autêntica.
Os partidos políticos tendem a ser clubes privados das oligarquias
locais e regionais, sempre tomam a forma clientelística na
qual a relação é de tutela e de favor. É
uma sociedade, conseqüentemente, na qual a esfera pública
nunca chega a constituir-se como pública, pois é definida
sempre e imediatamente pelas exigências do espaço privado
(isto é, dos interesses econômicos dos dominantes).
A indistinção entre o público e o privado não
é uma falha acidental que podemos corrigir, pois é
a estrutura do campo social e do campo político que se encontra
determinada por essa indistinção.
É uma sociedade que por isso bloqueia a esfera pública
da opinião como expressão dos interesses e dos direitos
de grupos e classes sociais diferenciados eou antagônicos.
Esse bloqueio não é um vazio ou uma ausência,
mas um conjunto de ações determinadas que se traduzem
numa maneira determinada de lidar com a esfera da opinião:
os mass media monopolizam a informação, e o consenso
é confundido com a unanimidade, de sorte que a discordância
é posta como ignorância ou atraso.
As disputas pela posse da terra cultivada ou cultivável são
resolvidas pelas armas e pelos assassinatos clandestinos. As desigualdades
econômicas atingem a proporção do genocídio.
Os negros são considerados infantis, ignorantes, safados,
indolentes, raça inferior e perigosa, tanto assim, que numa
inscrição gravada até há pouco tempo
na entrada da Escola de Polícia de São Paulo dizia:
"Um negro parado é suspeito; correndo, é culpado".
Os índios, em fase final de extermínio, são
considerados irresponsáveis (isto é, incapazes de
cidadania), preguiçosos (isto é, mal-adaptáveis
ao mercado de trabalho capitalista), perigosos, devendo ser exterminados
ou, então, "civilizados" (isto é, entregues
à sanha do mercado de compra e venda de mão-de-obra,
mas sem garantias trabalhistas porque "irresponsáveis").
Os trabalhadores rurais e urbanos são considerados ignorantes,
atrasados e perigosos, estando a polícia autorizada a parar
qualquer trabalhador nas ruas, exigir a carteira de trabalho e prendê-lo
"para averiguação", caso não esteja
carregando identificação profissional (se for negro,
além de carteira de trabalho, a polícia está
autorizada a examinar-lhe as mãos para verificar se apresentam
"sinais de trabalho" e a prendê-lo caso não
encontre os supostos "sinais"). Há casos de mulheres
que recorrem à Justiça por espancamento ou estupro,
e são violentadas nas delegacias de polícia, sendo
ali novamente espancadas e estupradas pelas "forças
da ordem". Isto para não falarmos da tortura, nas prisões,
de homossexuais, prostitutas e pequenos criminosos. Numa palavra,
as classes populares carregam os estigmas da suspeita, da culpa
e da incriminação permanentes. Essa situação
é ainda mais aterradora quando nos lembramos de que os instrumentos
criados durante a ditadura (1964-1975) para repressão e tortura
dos prisioneiros políticos foram transferidos para o tratamento
diário da população trabalhadora e que impera
uma ideologia segundo a qual a miséria é causa de
violência, as classes ditas "desfavorecidas" sendo
consideradas potencialmente violentas e criminosas.
É uma sociedade na qual a estrutura da terra e a implantação
da agroindústria criaram não só o fenômeno
da migração, mas figuras novas na paisagem dos campos:
os sem-terra, volantes, bóias-frias, diaristas sem contrato
de trabalho e sem as mínimas garantias trabalhistas. Bóias-frias
porque sua única refeição - entre as três
da manhã e as sete da noite - consta de uma ração
de arroz, ovo e banana, já frios, pois preparados nas primeiras
horas do dia. E nem sempre o trabalhador pode trazer a bóia-fria,
e os que não trazem se escondem dos demais, no momento da
refeição, humilhados e envergonhados.
É uma sociedade na qual a população das grandes
cidades se divide entre um "centro" e uma "periferia",
o termo periferia sendo usado não apenas no sentido espacial-geográfico,
mas social, designando bairros afastados nos quais estão
ausentes todos os serviços básicos (luz, água,
esgoto, calçamento, transporte, escola, posto de atendimento
médico). Condição, aliás, encontrada
no "centro", isto é, nos bolsões de pobreza,
os cortiços e as favelas. População cuja jornada
de trabalho, incluindo o tempo gasto em transportes, dura de 14
a 15 horas, e, no caso das mulheres casadas, inclui o serviço
doméstico e o cuidado com os filhos.
É uma sociedade que não pode tolerar a manifestação
explícita das contradições, justamente porque
leva as divisões e desigualdades sociais ao limite e não
pode aceitá-las de volta, sequer através da rotinização
dos "conflitos de interesses" (à maneira das democracias
liberais). Pelo contrário, a classe dominante exorciza o
horror às contradições produzindo uma ideologia
da indivisão e da união nacionais, a qualquer preço.
Por isso recusa perceber e trabalhar os conflitos e contradições
sociais, econômicas e políticas enquanto tais, uma
vez que conflitos e contradições negam a imagem mítica
da boa sociedade indivisa, pacífica e ordeira. Contradições
e conflitos não são ignorados e sim recebem uma significação
precisa: são considerados sinônimo de perigo, crise,
desordem e a eles se oferece uma única resposta: a repressão
policial e militar.
Nela vigora o fascínio pelos signos de prestígio e
de poder, como se observa no uso de títulos honoríficos
sem qualquer relação com a possível pertinência
de sua atribuição, o caso mais corrente sendo o uso
de "Doutor" quando, na relação social, o
outro se sente ou é visto como superior ("doutor"
é o substituto imaginário para os antigos títulos
de nobreza); ou como se observa na importância dada à
manutenção de criadagem doméstica, cujo número
indica aumento de prestígio e de status, etc..
A desigualdade salarial entre homens e mulheres, entre brancos e
negros, a exploração do trabalho infantil e dos idosos
são consideradas normais. A existência dos sem-terra,
dos sem-teto, dos desempregados é atribuída à
ignorância, à preguiça e à incompetência
dos "miseráveis". A existência de crianças
de rua é vista como "tendência natural dos pobres
à criminalidade". Os acidentes de trabalho são
imputados à incompetência e ignorância dos trabalhadores.
As mulheres que trabalham (se não forem professoras, enfermeiras
ou assistentes sociais) são consideradas prostitutas em potencial
e as prostitutas são tidas como degeneradas, perversas e
criminosas, embora, infelizmente, indispensáveis para conservar
a santidade da família.
A sociedade brasileira está polarizada entre a carência
absoluta das camadas populares e o privilégio absoluto das
camadas dominantes e dirigentes, bloqueando a instituição
e a consolidação da democracia.
4. Democracia: criação de direitos
De fato, uma sociedade é democrática quando institui
algo profundo, que é condição do próprio
regime político, ou seja, quando institui direitos. Essa
instituição é uma criação social,
de tal maneira que a atividade democrática realiza-se socialmente
como luta social e, politicamente, como um contra-poder social que
determina, dirige, controla, limita e modifica a ação
estatal e o poder dos governantes. Fundada na noção
de direitos, a democracia está apta a diferenciá-los
de privilégios e carências.
Um privilégio é, por definição, algo
particular que não pode generalizar-se nem universalizar-se
sem deixar de ser privilégio. Uma carência é
uma falta também particular ou específica que desemboca
numa demanda também particular ou específica, não
conseguindo generalizar-se nem universalizar-se. Um direito, ao
contrário de carências e privilégios, não
é particular e específico, mas geral e universal,
seja porque é o mesmo e válido para todos os indivíduos,
grupos e classes sociais, seja porque embora diferenciado é
reconhecido por todos (como é caso dos chamados direitos
das minorias).
Uma das práticas mais importantes da política democrática
consiste justamente em propiciar ações capazes de
unificar a dispersão e a particularidade das carências
em interesses comuns e, graças a essa generalidade, fazê-las
alcançar a esfera universal dos direitos. Em outras palavras,
privilégios e carências determinam a desigualdade econômica,
social e política, contrariando o princípio democrático
da igualdade, de sorte que a passagem das carências dispersas
em interesse comuns e destes aos direitos é a luta pela igualdade.
Avaliamos o alcance da cidadania popular quando tem força
para desfazer privilégios, seja porque os faz passar a interesses
comuns, seja porque os faz perder a legitimidade diante dos direitos
e também quando tem força para fazer carências
passarem à condição de interesses comuns e,
destes, a direitos universais.
É neste contexto que a práxis da ministra Matilde
precisa ser percebida e compreendida. É inconcebível
que seu papel na instituição da democracia no Brasil
possa ser diminuído ou contestado seja lá por quem
for e muito menos pelos agentes da violência institucionalizada
neste país.
Marilena Chaui é filósofa e professora da Faculdade
de Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH).
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