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Kátharsis : purgação
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  1. Verbete: Kátharsis
  2. Em 07 de agosto de 2001.
  3. Traduções (tradução, obra, tradutor, dados da edição)
  4. Purgación; purificación - Poética de Aristóteles - Valentín García Yebra

    YEBRA, Valentín García. Poética de Aristóteles. Edição trilíngüe. Madrid: Editorial Gredos, 1974.

    Conteúdo: O texto grego; o texto grego da presente edição; o texto latino; traduções castelhanas da Poética; texto trilíngüe (grego-latino-castelhano); notas à tradução espanhola; apêndices; bibliografia; relação de termos gregos; índice analítico; índice de autores.

    Purgatio; expiatio - Poética de Aristóteles - Antonio Riccobono (em obra supracitada)

    Purga - Metafísica de Aristóteles - Valentín García Yebra

    YEBRA, Valentín García. Metafísica de Aristóteles. 2ª edição revisada, trilíngüe. Madrid: Gredos, 1998.

    Conteúdo: Agradecimento; prólogo; prólogo à segunda edição; seleção bibliográfica; Metafísica, livros I a XIV; vocabulário greco-latino.

    Purgatio - Metafísica de Aristóteles - Guillermo de Moerbeke (em obra supracitada)

    Règles; évacuation; expulsion; perte; flux menstruel - Histoire des animaux - Pierre Louis

    ARISTOTE. Histoire des animaux. Texte établi et traduit par Pierre Louis. Paris: Les Belles Lettres, 1968. t. 2.

    Conteúdo: Siglas; livros V a VII; notas complementares.

    Catarse - Política - Mário da Gama Kury.

    ARISTÓTELES. Política. Tradução, introdução e notas de Mário da Gama Kury. 3ª edição. Universidade de Brasília, 1997.

    Conteúdo: Apresentação; notas à apresentação; livros I a VIII; notas; índice geral.

  5. Análise e discussão
  6. 4. 1. Definições

    Não nos chegou uma definição de Kátharsis feita por Aristóteles. Acredita-se que ela estivesse na parte perdida da Poética, já que Aristóteles explicita a intenção de oferecê-la em uma passagem da Política (em 1341b38: "o que falamos da catarse, agora de modo simples, novamente enunciaremos no acerca da poética com mais clareza").

    Através da edição da Poética de Valentín García Yebra temos acesso a definições dadas por alguns comentadores e suas respectivas traduções para o espanhol:

    Século XVI - " Battista Guarini, Il Verrato, 1558, pág. 22v. (Weinberg, pág. 658, n. 49):

    "[Los efectos de la purgación operada por la tragedia son como los que consiguen los médicos] "i quali quand'essi vogliono purgare, pogniam caso la colera, non è fin loro di spegnerla, ò diradicarla in tutto dal corpo humano... ma di levarne sol quella parte che... corrompe la simetria degli humori, onde poi nasce la 'nfirmità. Non purga dunque il Poema Tragico gli affetti suoi alla stoica nò, spiantandoli affatto da nostri cuori, ma moderandoli et riducendoli à quella temperie che può servire all'habito vertuoso... Han dunque bisogno questi due affetti d'esser purgati, cioè ridotti à vertuoso temperamento, et questo fa la Tragedia"."

    [Os efeitos da purgação operada pela tragédia são como os que conseguem os médicos] "os quais, quando querem purgar, por exemplo, a bílis, não se propõem a suprimi-la ou erradicá-la totalmente do corpo humano... mas a afastar somente aquela parte que corrompe a simetria dos humores, de onde logo nasce a enfermidade. Assim, pois, o Poema Trágico não purga seus afetos à estoica, arracando-os totalmente de nossos corações, mas moderando-os e reduzindo-os à tempérie que pode servir ao hábito virtuoso... Têm, pois, essas duas afecções necessidade de ser purgadas, isto é reduzidas ao virtuoso temperamento, e isto faz a Tragédia."

    Século XX - "J. Hardy, Aristote. Poétique. Texte établi et traduit par... Quatrième édition, Paris, 1965, pág. 22:

    "La conception de la catharsis dérive d'une conception plus générale, et qui par Platon remonte à Démocrite, d'un traitement homoeopathique, o(/moion pro\j to\ o(/moion. Il consiste pour la tragédie, à traiter le tempérament plus ou moins émotif du spectateur par des émotions provoquées. De la même façon, dans les cultes orgiastiques, l'enthousiasme provoqué par les danses rituelles guérissait de l'enthousiasme religieux envoyé par le dieu"."

    "A concepção da catharsis deriva de uma concepção mais geral, e que para Platão remonta a Demócrito, de um tratamento homeopático, o(/moion pro\j to\ o(/moion. Ele consiste pela tragédia, em tratar o temperamento mais ou menos emotivo do espectador através de emoções provocadas. Do mesmo modo, nos cultos orgiásticos, o entusiasmo provocado pelas danças rituais curava o entusiasmo religioso enviado pelo deus."

    "A. Rostagni, Poetica di Aristotele, 2ª ed., Torino, 1945, pág. XLV:

    "In realtà la catarsi musicale, con cui quella poetica si identifica, è da Aristotele presentata come una operazione tra medica ed orgiastica mediante la quale gli uomini trovano sfogo alle loro passioni e, in conseguenza di ciò, si sentono alleggeriti ed allietati"."

    "Em realidade, a catarse musical, com a qual se identifica a catarse poética, é apresentada por Aristóteles como uma operação entre médica e orgiástica, mediante a qual os homens encontram desafogo para suas paixões e, em conseqüência, se sentem aliviados e alegres."

    Definição do próprio Yebra:

    "ka/qarsij é propriamente um termo técnico da linguagem da medicina. No Index Aristotelicus de Bonitz 354b22-355a32 pode-se ver numerosos exemplos deste uso nas obras de Aristóteles. Neste sentido corresponde ao lat. purgatio, esp. "purgamento" ou "purgação". Deste primeiro sentido fisiológico, que pode se estender inclusive ao reino vegetal - aplicado por exemplo à poda das vinhas -, passa-se, por analogia, a outro que é também uma espécie de termo técnico da linguagem religiosa, de onde vem a ser o sinônimo "expiação" ou "purificação"; assim no cap. 17 da Poética, 55b15: oi(=on e)n tw=| )Ore´sth| h( mani/a di' h(=j e)le/fqh kai\ h( swteri/a dia\ th=j kaqa/rsewj: "como, em Orestes, a loucura, pela qual foi detido, e a salvação mediante a purificação". Por último, ka/qarsij se usa, também analogicamente, em sentido psíquico: assim como se purgam os humores do corpo para evitar ou curar enfermidades, também se purgam as paixões ou as afecções da alma para curá-la de suas doenças.

    "É evidente que Aristóteles nessa passagem não se refere aos humores do corpo nem à purificação de caráter religioso obtida mediante cerimônias ou ritos determinados, mas que usa a palavra analogicamente, em sentido psíquico, com relação a doenças da alma. Nos textos aludidos no Apêndice I pode-se ver que a maioria dos tradutores e comentadores, ao traduzir ou explicar esta passagem, usam a palavra latina purgatio ou seus derivados modernos. Assim fazem-no quase unanimamente os que são citados do século XVI, e unanimamente os cinco do XVII. Nos posteriores há mais variedade terminológica. Rostagni destaca inclusive a palavra purificati. Para os alemães deve se ter em conta que Reininung tanto pode significar "purgação" no sentido fisiológico e terapêutico como "purificação" em sentido moral e anímico. Parece-me, pois, admissível "purificação" para traduzir ka/qarsin nessa passagem, posto que Aristóteles não usa aqui o termo em sua acepção primeira, mas em sentido analógico; preferível, contudo, "purgação", precisamente pela conotação medicinal ou terapêutica que implica a significação analógica desta palavra.

    "Porém a discussão não trata geralmente de decidir a favor de "purgação" ou "purificação" ou outros termos afins para traduzir ka/qarsin (não falta quem tenha saído do passo com a simples transcrição "catarsis" ou seus equivalentes em outras línguas), mas de delimitar o alcance da palavra grega e, por conseguinte, o de suas traduções. Quê quis dizer exatamente Aristóteles ao escrever que a tragédia, mediante a compaixão e o temor, produz uma ka/qarsin, uma "purgação", ou "purificação"? Trata-se de uma extirpação ou erradicação, ou, melhor, de uma moderação ou suavização?

    "Vincenzo Maggi, um dos primeiros comentadores da Poética, parece entender o primeiro: tal é o sentido dos termos expurgare e expurgatio ("limpar expulsando") que usa reiteradamente, tanto en a) como em b), e dos que emprega em a) como sinônimos de expurgare: removere ("ad alias pertubationes... removendas") e depellere ("Nam ira... depulsa"). Expurgare é também o termo usado por Giraldi no segundo membro de sua pergunta incontestada. De igual opinião é Castelvetro, que nos textos c) e b) considera scacciamento e scacciare como sinônimos de purgatione e purgare. E o mesmo parece entender Schadewaldt, o último dos comentadores citados, ao falar da befreiende Empfindung der Ausscheidung dieser und verwandter Affekte, " a sensação, liberadora, da expulsão dessas afecções e de outras afins".

    "Vettori, por sua vez, entende a "purgação" (purgare) no sentido de "moderação" (modum adhibet... pertubationibus; curat impetum pertubationum... quas excitat moderaturque). E como Vettori opina a grande maioria dos tradutores e comentadores. Van Ellebode, sem mencionar a purgatio, fala de temperare e moderatione gubernare. Piccolomini usa como sinônimo de purgare "moderare" e "temperare" em a), "venire a mancare gran parte (delle passioni)", "moderare", "mitigare" em b). Riccoboni explica perpurgare por "temperare" e "moderari". Guarini se manifesta nesse mesmo sentido com especial energia e nitidez: purgare não é spegnere ou diradicare ("extinguir" ou "desarraigar"), mas afastar somente aquela parte que corrompe a simetria dos humores (veja-se todo o texto, n° 17). E o mesmo pensa, ainda que o diga mais veladamente, Buonamici. São também deste parecer Corneille, Racine, Milton, Batteux, e o mesmo parece se deduzir das considerações de Lessing, Butcher e Rostagni.

    "O argumento de Guarini parece muito bem fundado. Aristóteles usa aqui o termo ka/qarsij "purgação" em sentido analógico. Guarda-se, pois, a analogia. O médico que quer purgar a bílis não trata de destruí-la por completo, mas de reduzi-la à proporção conveniente. O mesmo há que se entender, portanto, da "purgação" aqui considerada. Não se trata de suprimir, extirpar ou desarraigar, mas de moderar, temperar, reduzir à justa proporção ou medida."

    4.2. Etimologia (segundo CHANTRAINE, Pierre. Dictionnaire Étimologique de la Langue Grecque. Paris: Klincksieck, 1990, v. 1.)

    "Kaqaro/j: com as variantes dial. Koqaro/j (dor., Schwyzer 62, 103) e ko/qaroj (eol., Alc. 38 L. P.) "próprio", etc; na Il. somente e)n kaqar%¤ "em lugar descoberto"; na Od. epit. de ei(/mata, mas também mh\ kaqar%= qana/t% (22, 462) para qualificar o enforcamento das servas; segundo Homero: "próprio, puro" (diz-se da água), "limpo, debulhado" (do grão), empregado em sentido moral ou religioso, a pureza religiosa encontrando-se por outro lado associada à propriedade do corpo; adj. derivados: kaqa/reioj "puro", de onde "conveniente, de boa qualidade, correto gramaticalmente", etc. (Arist., Men., etc.), as formas em -ioj podem ser devidas ao iotacismo; adv. -ei/wj "convenientemente" [às vezes oposto a polutele/j (X., com., etc.): a influência analóg. de a)stei=oj não é segura; com suf. diminutivo kaqa/rulloj diz-se do pão (com.). Nomes de qualidade: kaqaro/thj f. "pureza, propriedade, integridade", etc. (Pl., etc.) e kaqareio/thj "propriedade, clareza, elegância, integridade" (Hdt., X., etc.).

    "Verbos denominativos: 1) kaqa/rw [koq- em Heraclida], f. -arw=, aor. -hra [mas a partir do gr. helen. também -ara] "limpar, purificar, purgar" (Hom., ion. -att., medic., etc.), igualmente com pref. : a)na-, a)po-, dia-, e)k-, e)pi-, peri-, etc. Nomes de ação: ka/qarsij [koq- em "éléen"] "purificação, evacuação", etc. (ion. -att., etc.), igualmente com a)na-, dia-; kaqarmo/j (Emp., Hdt., trag.) sobretudo empregado com um sentido religioso; ka/qarma "purificação", mas também o que vem da purificação, da limpeza, de onde "detrito, lixo" (ion. -att.), sobretudo no plural. Nomes de agente: kaqarth/j "purificador" (Hp., ion. -att., etc.), de onde kaqartiko/j "bom para purificar" (Hp., Pl., Arist., etc.); kaqa/rsioj "purificador" no sentido religioso (Hdt., trag.); com kaqa/rsion "sacrifício de purificação" (Ésq.), ou "purgação" (med.); *kaqartoj não é atestado, mas a)ka/qartoj "sujo, impuro" (Hp., Pl., D.); o nome de agente kaqarth/r é tardio (Man., Plu.), com kaqarth/rioj (D. H.);

    "2) kaqari/zw "limpar, purificar" (LXX, NT, pap., etc.), igualmente com os prefixos a)po-, dia-, e)k-, peri-, de onde os nomes de ação kaqarismo/j "purificação" (LXX, NT, pap.) kaqa/risij (pap.);

    "3) kaqareu/w "ser próprio, puro, limpo" (Pl., etc.) com o dublê kaqarieu/w (med., gram.) e kaqa/reusij (Hsch., EM);

    "4) Presente factitivo na passiva kaqario/omai "ser purificado" (LXX).

    "kaqaro/j signigica "próprio" mas a pureza ritual se encontra estreitamente associada à propriedade. No sentido religioso se opõe a miaro/j e se distingue de a(gno/j mais sinceramente religioso. Ver Rudhart, Notions fondamentales 50-51.

    "kaqaro/j subsiste em grego moderno, com palavras notáveis como kaqareu/ousa "linguagem purista", kaqari/zw, kaqa/risma "limpeza", kaqaristh/rion "tinturaria", etc.

    "Et.: A variação entre kaqaro/j e a forma dialetal koqaro/j é inexplicada. Sem etimologia: poder-se-ia supor um neutro antigo *ka/qar ou *ko/qar."

    1. Passagens importantes

    Peri\ poihtikh=j

    Acerca da Poética, 1449b 24-28

    )/Estin ou)=n trag%di/a mi/mhsij pra/xewj spoudai/aj kai\ telei/aj, me/geqoj e)cou/shj, h(dusme/n% lo/g%, cwri\j e(ka/stou tw=n ei)dw=n e)n toi=j mori/oij, drw=ntwn kai\ ou) di' a)paggeli/aj, di' e)le/ou kai\ fo/bou perainousa th\n tw=n toiou/twn paqhma/twn ka/qarsin.

    Portanto a tragédia é a imitação de uma ação séria e acabada, que possui grandeza, que compraz pela palavra, com separação de cada uma das espécies em partes, através da atuação e não de um relato, que por meio da piedade e do medo leva a termo a purgação dessas afecções.

    POLITIKWN Q

    Política, 1341a21

    e)/ti de\ ou)k e)/stin o( au)lo\j h)qiko\n a)lla\ ma=llon o)rgiastiko/n, w(/ste pro\j tou\j toiou/touj au)tw=| kairou\j crhste/on e)n oi(=j h( qewri/a ka/qarsin ma=llon du/natai h)\ ma/qhsin.

    Ademais a flauta não é da ordem dos costumes mas, sim, ela é orgiástica, de modo que se deve se servir dela naquelas circunstâncias nas quais o espetáculo tem o poder de purgar, não o de ensinar.

    POLITIKWN Q

    Política, 1342a4-b15

    o(\ ga\r peri\ e)ni/aj sumbai/nei pa/qoj yuca\j i)scurw=j, tou=to e)n pa/saij u(pa/rcei, tw=| de\ h(=tton diafe/rei kai\ tw=| ma=llon, oi(=on e)/leoj kai\ fo/boj, e)/ti d' e)nqousiasmo/j; kai\ ga\r u(po\ tau/thj th=j kinh/sewj katokw/cimoi/ tine/j ei)sin, e)k tw=n d' i(erw=n melw=n o(rw=men tou/touj, o(/tan crh/swntai toi=j e)xorgia/zousi th\n yuch\n me/lesi, kaqistame/nouj w(/ster i)atrei/aj tuco/ntaj kai\ kaqa/rsewj; tau)to\ dh\ tou=to a)nagkai=on pa/scein kai\ tou\j e)leh/montaj kai\ tou\j fobhtikou\j kai\ tou\j o(/lwj paqhtikou/j, tou\j d' a)/llouj kaq' o(/son e)piba/llei tw=n toiou/twn e(ka/stw, kai\ pa=si gi/gnesqai/ tina ka/qarsin kai\ koufi/zesqai meq' h(donh=j.

    Pois a disposição está unida a algumas almas de modo intenso, embora ela subsista em todas, diferindo-se pela menor e pela maior intensidade e tendo como exemplos a piedade, o medo e o entusiasmo; pois alguns que são possuídos por essas perturbações, vêmo-los por causa dos cantos sagrados, no momento em que se prestam aos cantos suas almas são lançadas em delírio, apresentando-se como os que se encontram sob tratamento e purgação; isto mesmo então é forçoso que sofram tanto os piedosos quanto os medrosos e os que em geral são sensíveis, e os outros na medida em que o mesmo se lança sobre cada um deles; e a todos ocorre uma purgação e sentem alívio junto com prazer.

    4.4 Discussão conceitual

    Em geral, associa-se o termo kátharsis à Poética quando se estuda Aristóteles. É interessante notar que nesta obra o termo só aparece duas vezes e, mesmo assim, em cada momento em um âmbito semântico diferente. Tal associação, a princípio estranha, não é de todo modo impertinente; pois parece que é na Poética, em um único passo, que o termo é cunhado por Aristóteles, tomando uma forma especial, destacada da acepção ordinariamente conhecida. Para chegarmos a essa conclusão passamos pela leitura da História dos Animais, onde encontramos um sentido mais concreto do termo, e da Política, onde já se vê, embora sem muita clareza (como admite o próprio Aristóteles), a adoção de um sentido menos físico para a kátharsis. Mas refaçamos o percurso:

    No livro VII da História dos Animais, kátharsis na maior parte das vezes significa menstruação. No capítulo II Aristóteles afirma ser a menstruação o fluxo produzido pela excreção. Ela é um líquido excedente próprio às mulheres, visto que em outros animais tal excedente serve para formar escamas e plumas, no caso dos que não são vivíparos, e pêlos e urina espessa no caso dos vivíparos. Como o homem entre esses últimos é o único que tem a pele lisa, sua excreção se dá pela menstruação nas mulheres e pelo esperma nos homens. A menstruação (kátharsis) é uma expulsão necessária, pois mesmo quando ela é interrompida, no momento da gravidez, seu fluxo se volta para os seios e se transforma em leite e, se ainda assim, a mulher tem um excesso de líquido que deve ser expelido, ela o faz pelo vômito (émetos - cap. IV). No capítulo XI Aristóteles descreve outras formas de expulsão do líquido - todas elas substitutas da menstruação. O que fica claro é que a kátharsis, ou a sua substituição por outras formas de excreção, é vital para o homem. A ela está subordinada sua saúde. Na Metafísica V, 2, dentro da definição de causa (tò aítion), kátharsis aparece como sendo uma das causas finais da saúde, mas como algo provocado pelo médico, configurando entre outras causas também provocadas: o estancamento (iskhnasía), as drogas (phármaka) e os instrumentos (órgana). Todas elas existem, como afirma Aristóteles em seguida, para o fim (a saúde), sendo umas instrumentos (órgana) e outras obras (érga). Kátharsis e iskhnasía são obras, embora com procedimentos opostos. Até aqui temos que a kátharsis é não só vital por natureza, como também pode ser um artifício impetrado com vistas à saúde, à vida.

    Ainda com interesse no sentido ordinário de kátharsis, para se entender de onde Aristóteles parte para empregá-lo a seu modo, encontramos na Poética ainda uma outra acepção: kátharsis em sentido religioso. O termo é usado na descrição que o autor faz de Ifigênia entre os Touros, de Eurípides (145b2-15). Nessa tragédia Ifigênia, filha de Agamêmnon que seria sacrificada para fazer os ventos voltarem a soprar as naus dos aqueus na direção de Tróia, depois de fugir com a ajuda de Ártemis para a Terra dos Touros passa a ser a sacerdotisa do lugar, cabendo-lhe o sacrifício de qualquer grego que ali entre. Seu irmão, Orestes, que ali aporta, tem um acesso de loucura, começa a matar o gado da região e acaba preso por boieiros. Depois que os irmãos se reconhecem, Ifigênia trama um ritual de purificação para salvar Orestes da morte e para ela própria escapar da fúria do Rei. A salvação de Orestes se dá mediante a purificação - h( swthri/a dia\ th=j kaqa/rsewj - é o que diz Aristóteles. No texto de Eurípides a palavra usada é katharmós, uma possibilidade de nome da ação que Chantraine fornece para o verbo kathároo. A outra possibilidade, que é a usada por Aristóteles, é kátharsis. Essa kátharsis é ritual e reconhecida pela gente comum, já que aparece como um bom argumento para enganar o Rei. Como parte essencial do drama, o artifício da kátharsis é o que permite a saída do impasse em que os personagens se acham, de modo que ela não devia ser vedada ao público, senão a trama não seria compreendida pelos espectadores.

    Em ambos os domínios, o médico e o religioso, kátharsis é a liberação de um mal próprio, é um expulsar de si algo cujo excesso é prejudicial; e isso se aplica desde aos líquidos corporais até aos crimes contra as divindades. Isso que para nós só é possível ser sabido a partir da pesquisa, para um grego da época era trivial. Essa era a noção ordinária do termo kátharsis (e mesmo hoje, como nos aponta Chantraine, o termo guarda certa simplicidade, própria às palavras faladas no cotidiano; do mesmo radical de kátharsis se deriva a palavra katharistērion - tinturaria para um grego de hoje).

    Todavia, disso que se mostra trivial Aristóteles faz um uso peculiar, no qual estão envolvidas suas posições acerca da educação, acerca da música e da tragédia especificamente.

    No livro VIII da Política, Aristóteles, tematizando a educação dos jovens, investiga a "função" da música. Uma das primeiras questões que ele levanta (cap. IV) é a razão pela qual se deve a dedicação que se lhe presta. Se é a música um jogo (paidía) e um descanso (anápausis), como diz Eurípides, ou se ela espalha a virtude (aretē). Nas Bacantes o coro, indignado com a postura do Rei frente a Dionísio assim canta: (Osia po/tna qew=n, / (Osi/a d' a(\ kata\ ga=n / cruse/an pte/ruga fe/reij, / ta/de Penqe/wj a)i/eij; / a)i/eij ou)c o(si/an / u(/brin ei)j to\n Bro/mion, / to\n Seme/laj, to\n para\ kallistefa/noij / eu)frosu/naij dai/mona prw=- / ton maka/rwn; o(\j ta/d' e)/cei, / qiaseu/ein te coroi=j / meta/ t' au)lou= gela/sai / a)popau=sai/ te meri/mnaj, / o(po/tan bo/truoj e)/lqh| / ga/noj e)n daiti\ qew=n, / kissofo/roij d' e)n qali/aij / a)dra/si krath\r u(/pnon a)mfiba/ll$. Santidade venerável dentre os deuses / Santidade que ao encontro da terra / leva suas áureas asas, / tu escutas Penteu? / Não escutas a blasfema / insolência que dirige a Brômio, / ao filho de Semele, ao de belas coroas / divino por seus festins o primeiro / dentre os bem-aventurados? Esse que te detém / há de celebrar um bacanal com os coros / e por causa da flauta rirá / e das preocupações se livrará, / quando vier da uva / um fulgor em banquete aos deuses, / e sobre hera espessa / a cratera envolver em sono os homens.

    A citação de Eurípides nos interessa por conter uma visão do que seja a flauta. Pois a flauta, também para Aristóteles (a tradução desse trecho se encontra no item 4.3), não tem o poder de ensinar (máthēsis), mas o de purgar (kátharsis); ela não é da ordem dos costumes, ou da moral (ēthikón), é orgiástica (orgiastikón); de modo que não é admitida na educação (paideía) dos jovens. O autor ainda conta uma história antiga segundo a qual Atena teria jogado fora a flauta logo depois de tê-la inventado. Ainda segundo a história ela o teria feito por desgosto ao ver a deformação na face de seus executantes. Para Aristóteles, porém, a deusa na verdade teria se dado conta de que a flauta não convém de modo algum à reflexão (diánoia), tendo ele em vista que à deusa atribuímos a ciência (epistēmē) e a arte (tékhnē).

    A partir do pensamento aristotélico acerca da flauta obtemos mais dados sobre a kátharsis. Pela kátharsis não se aprende, pois ela se opõe a máthēsis; ela não é habitual, pois é orgiástica, excepcional; e, ainda, não contribui para a reflexão. Contudo, a kátharsis, como se vê em 1342a4-15 (trecho traduzido no item 4.3) se assemelha à droga, posta no mesmo âmbito semântico do tratamento, da cura (iatreía), embora agora o objeto de cura não seja o corpo, mas a alma. Esta, acometida por afecções (páthos) como o medo, a piedade e o entusiasmo, é perturbada, levada ao delírio e passa pelo processo de purgação (kátharsis), que promove, junto com o alívio, o prazer.

    Justificando toda a sua digressão acerca da flauta, Aristóteles lembra ainda (1342b) no final da Política que todo furor báquico e toda perturbação desse tipo se dão principalmente por meio da flauta. Ele não só elabora um discurso sobre o tema, como também aponta para a sua efetividade.

    Com todo o escopo que possuímos até aqui podemos agora nos voltar para a Poética e transpor para lá as noções de kátharsis anunciadas nos livros anteriormente estudados. O que se tem a acrescentar é que então ela é considerada dentro da definição de tragédia (a tradução dessa definição consta no item 4.3). A tragédia "por meio da piedade e do medo leva a termo a purgação dessas afecções". Ela é um exemplo de espetáculo com o poder de purgar, com o poder de expulsar do espectador algo cujo excesso é prejudicial e trazer, com isso, o alívio e o prazer. O medo e a piedade são afecções (páthē) que uma vez instaladas na alma se comportam como males, doenças. Se não fosse como o descrito a purgação não aconteceria, pois ela se dá somente conforme à necessidade (como vemos na História dos Animais). A insanidade, portanto, também pode se estender à alma. Apesar de nos ser próprio o ser acometido por afecções, assim como nos são próprios os humores corporais, faz-se necessária, disso depende nossa saúde física e psíquica, a purgação dos excessos.

  7. Bibliografia

-Bibliografia utilizada nesta pesquisa:

ARISTOTE. Histoire des animaux. Texte établi et traduit par Pierre Louis. Paris: Les Belles Lettres, 1968, t. 2.

ARISTÓTELES. Política. Tradução, introdução e notas de Mário da Gama Kury. 3 ed. Brasília: Universidade de Brasília, 1997.

ARISTOTELIS. Politica. Recognovit brevique adnotatione critica instruxit W. D. Ross. Oxford: Oxford University Press, 1986.

BAILLY, A. Dictionnaire Grec Français. Rédigé avec le concours de E. Egger, édition revue par L. Séchan et P. Chantraine, avec, en appendice, de nouvelles notices de mythologie et religion par L. Séchan. Paris: Hachette, 2000.

CHANTRAINE, Pierre. Dictionnaire Étimologyque de la Langue Grecque. Paris: Klincksieck, 1990, v. 1.

EURIPIDES. Works. With an English translation by Arthur S. Way. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press; London: William Heinemann, 1979, v. 3.

__________ Works. With an english translation by Arthur S. Way. Cambridge, Massachusetts: Harvard University Press; London: William Heinemann, 1988, v. 2.

YEBRA, Valentín García. Metafísica de Aristóteles. 2ª edição revisada, trilíngüe. Madrid: Gredos, 1998.

_____________________ Poética de Aristóteles. Edição trilíngüe. Madrid: Gredos, 1974.

  • Bibliografia indicada por Yebra (transcrição):

Boekel, C. W. van, Katharsis. Een filologische reconstructie van de psychologie van A. omtrent het gevoelsleven. Diss., Nijmegen-Utrecht, 1975 (con bibliogr. Hasta 1955).

Diano, C., "La catarsi tragica", in Sagezza e poetiche degli antichi, Vicenza, 1968, 215-269.

Dirlmeier, F., Ka/qarsij paqhma/twn, Hermes LXXV (1940) 81-92.

Freire, A., "A catarse tragica em Aristóteles", Euphrosyne, Nova Serie, vol. III, 31-45.

Golden, L., "Mimesis and Katharsis", Classical Philology (1969) 145-153.

Kitto, H. D. F., "Catharsis", The Classical Tradition. Literary and Historical Studies in Honor of Harry Caplan, ed. Luitpold Wallach, New York (1966) 133-147.

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6. Alice Bitencourt Haddad, em 07 de agosto de 2001.



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