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| O CATÁLOGO DAS NEREIDAS (Para uma arqueologia da idéia de categoria desde as formas homéricas de classificação) por Fernando Santoro
Les facultés de définir, de déduire, d’induire, sont
généralement considérées comme immédiatement
données dans la constitution de l’entendement individuel.[...] on ne songeait même pas qu’elles aient pu se former
par un pénible assemblage d’éléments empruntés aux
sources les plus différentes, les plus étrangères à la
logique, et laborieusement organisés.
A observação de Kant suscita a reflexão sobre o problema central com que vamos nos deparar nas investigações seguintes: Não apenas como se descobrem as categorias, seja as dez de Aristóteles, seja as doze de Kant, mas: como vem a ser a idéia mesma de categoria e como torna-se determinante para o nosso modo científico ocidental de conhecer. Serão as categorias formas inatas das funções cognitivas do homem ou são elas criadas e cultivadas historicamente dentro de culturas específicas? Caso assim sejam, como acontece essa criação e cultivo? São as categorias formas típicas de um certo modo de conhecer? Qual seria este modo? São as categorias realidades das coisas mesmas ou algo separado delas? São as categorias elementos do ser, da razão, do pensamento, da linguagem ou apenas das línguas? Muitas são as questões – talvez não sejam questões de resposta simples ou cabal, mas um primeiro passo no que entendemos ser o caminho da reflexão filosófica já é pôr com alguma clareza, ou melhor, com algum espanto, um rasgo de ignorância sobre o modo mesmo que usamos para conhecer: essa nossa forma categorial de predicar atributos a um sujeito.
Voltemos àquela passagem da Crítica da Razão Pura. Além do
problema central da origem das categorias, o modo com que Kant aborda a
diferença de seu empreendimento em relação ao de Aristóteles também nos
instiga algumas considerações prévias. Se, para Kant, Aristóteles é
perspicaz o bastante para buscar tais conceitos fundamentais, não está de
posse e não tem domínio sobre o princípio transcendental que os engendra:
a unidade proveniente da síntese pura das representações numa intuição.
Como esta
O princípio de que Kant ‘estava de posse’ é, no entanto,
mais do que a orientação da correspondência entre as categorias e os
juízos. O princípio, ao qual não apenas Kant, mas toda a Modernidade se
agarra e alavanca todo o seu conhecimento, “o princípio supremo de todo o
conhecimento humano” [CRP, 134], é o que opera a própria síntese das
representações diversas numa unidade e permite a ligação em juízos, isto
que se descobre como a unidade da apercepção, que acompanha todo juízo, e
acontece quando eu penso, e me represento para mim mesmo que penso – isto
que chamamos de Cogito Cartesiano. Este princípio é o Para figurar a falta de um princípio ordenador, diz Kant que Aristóteles os respigou (aufraffte) à medida que se lhe deparavam, e os foi reunindo, primeiro dez, depois mais cinco, misturando aos conceitos do entendimento também modos da sensibilidade (quando, ubi, situs, primus e simul) e empíricos (motus) bem como outros conceitos derivados dos primitivos (actio e patio), deixando de lado outros.
Também, de certo modo, Kant tem razão em dizer que
Aristóteles os respigou e reuniu, em vez de propô-los positivamente desde
um princípio do qual detivesse a posse. As categorias de Aristóteles não
são conceitos a priori com os quais a razão apodera-se da realidade, mas
também não são colhidos tão a esmo como a Kant lhe parece. As categorias
são, para Aristóteles múltiplos modos de dizer o que é, pollakos legomena,
expressão para a qual ainda havemos de retornar. E todas as categorias se
dizem de um sujeito primeiro e são relativas a ele, que é uma entidade (ousia)
que pode suportar em seu ser aqueles Se Kant já achou desordenada a tábua de categorias aristotélicas, imagine-se o que não diria das categorias que Borges encontrou em “certa enciclopédia chinesa” e que Foucault comenta belamente na introdução de seu “As palavras e as coisas”.Trata-se de uma repartição de animais que “se dividem em: a) pertencentes ao imperador, b)embalsamados, c)domesticados, d)leitões, e)sereias, f)fabulosos, g)cães em liberdade, h)incluídos na presente classificação, i)que se agitam como loucos, j)inumeráveis, k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo l) et coetera, m) que acabam de quebrar a bilha, n) que de longe parecem moscas”.
Desconfio, com alguma reserva, que a “enciclopédia chinesa”
que inspirou Borges é o Livro de Cabeceira de Sei Shonagon, dama de honra
da princesa Sadako, escrito no séc. XI. É um livro de uma profunda
sensibilidade, todo composto de listas que não apenas enumeram coisas, mas
as classificam e avaliam. Listas que acabam descrevendo muito mais a
percepção e a perspectiva de mundo de quem enquadra daquela maneira
aquelas coisas. Talvez Kant não reconhecesse ali nem uma tábua de
categorias nem sequer um discurso de conhecimento. Mas há, no livro de Sei
Shonagon, uma sabedoria reflexiva que nos é essencial para a investigação
sobre as categorias como formas de dizer e conhecer o real. Antes de tudo,
suas listas são recortes absolutamente cientes da própria parcialidade e
perspectivismo, note-se o item “h” na lista borgeana em que isto se expõe
objetivamente. Outro ponto claro é o fato de ser um texto Mas em tal expressão não deixa de ser exposto um certo conhecimento, ainda que seja o conhecimento restrito de uma visão de mundo. Mas quando é que não estamos determinados por uma visão de mundo? Não é a própria cientificidade uma certa visão de mundo? Não podemos investigar a gênese dessa visão de mundo científica e filosófica assim como investigamos a intimidade da dama de honra: expondo os valores e hierarquizações, as formas de ordenar e classificar as coisas e, principalmente o modo de dizer o que elas são? Nossa hipótese de trabalho é que toda linguagem abriga formas de conhecimento e visão de mundo e que as formas do discurso de conhecimento filosófico e científico são transformações específicas de formas de conhecimento que preexistem nos modos de expressão anteriores ao discurso filosófico e científico. Quer dizer que temos, por natureza, uma predisposição para conhecer e dizer o mundo, mas que o modo como o dizemos transforma-se histórica e culturalmente, como disse M. Mauss (1903), “por uma penosa reunião de elementos recebidos das mais diferentes fontes, as mais estranhas à lógica, e laboriosamente organizados” . Não passamos a conhecer apenas quando surgiu o discurso da filosofia e da ciência, mas aquele momento de surgimento reúne um processo de transformações importantes na linguagem. O discurso categorial do tipo “sujeito é predicado” em que o sujeito suporta as categorias que o manifestam é o modelo típico da nossa frase ocidental de conhecimento. Poderíamos encontrar modelos de linguagem e visão de mundo desde os quais pudéssemos pensar e acompanhar uma transformação na ordem e disposição das palavras para vislumbrar uma hipotética gênese estrutural daquela frase? É o que pretendemos tentar, buscando primeiro algumas características semelhantes às do esquema das categorias em figuras de linguagem de textos anteriores ao surgimento da filosofia.
Um texto clássico usualmente apresentado como fronteiriço
entre as formas míticas e orais de conhecimento, de um lado, e articulação
conceitual e categorial filosófica, de outro, é a Teogonia de Hesíodo.
Trata-se de uma narrativa genealógica dos deuses gregos, desde o Caos até
a contemporaneidade do poeta. Engendrando os deuses, o poema vai
concomitantemente engendrando todo um mundo, com seus elementos e forças
naturais, com seus valores e as tensões, harmonias e conflitos que
envolvem esses elementos. Assim a Teogonia é claramente também uma
cosmogonia em que um mundo inteiro é expresso, e ainda, para nós que a
lemos, a expressão de uma bem articulada visão de mundo. Uma visão de
mundo em que os elementos e forças constituintes são os deuses que agem e
relacionam-se entre si como se fossem humanos: amando, procriando, tomando
o poder, fazendo alianças, No entanto, para haver metáfora ou alegoria, é preciso já haver clareza dos conceitos de elementos naturais e valores abstratos, conceitos que propriamente só aparecem com o surgimento da filosofia, cuja primeira atitude é justamente criticar o valor de verdade das palavras míticas de Hesíodo, Arquíloco, Homero... Só pode haver propriamente metáfora e alegoria quando a filosofia já está consolidada. Por isso as teorias literárias da metáfora e mesmo as interpretações alegóricas dos poemas épicos surgem apenas no Helenismo tardio, em filósofos estóicos como Cornutus, ou em escolas de gramática como a de Pérgamo. Os deuses míticos que aparecem na ordenação cósmica da Teogonia não são metáforas de conceitos filosóficos que ainda não existem, mas se podemos relacionar a Teologia genealógica de Hesíodo com elementos das cosmologias fisiológicas dos primeiros filósofos numa interpretação de tipo alegórico ou até mesmo numa crítica à forma antropomórfica daqueles mitos – isto só é possível porque de certo modo há uma semelhança prévia e mesmo uma identidade de propósitos. A identidade de propósitos está em que tanto a filosofia quanto a poesia tradicional épica visam educar o jovem nos conhecimentos e valores básicos, gerais, indispensáveis para uma visão global de mundo. A semelhança prévia, que vemos na Teogonia ainda mais do que em outros poemas épicos, está numa certa articulação das palavras em relações próximas às relações categoriais do discurso científico e filosófico. Esta semelhança é que nos faz supor que esta articulação de palavras pode ser um esquema protocategorial. Esta suposição genética não visa mostrar uma evolução de formas primitivas de conhecimento até formas mais desenvolvidas; uma perspectiva genealógica busca entender o desdobramento de um processo histórico, mas não tem que ser necessariamente evolucionista valorando o posterior como melhor, tampouco como pior. No caso de formas de conhecimento como as categorias o que nos interessa é antes a espontaneidade criadora da linguagem que desde suas experiências livres descobre formas de entrelaçar as palavras e com elas tecer a trama de uma compreensão de mundo. Em se tratando de uma genealogia, a Teogonia apresenta uma relação recorrente entre entidades divinas: a relação de parentesco filial. Esta relação recorrente engendra grupos e subgrupos identificados pelo fato de serem os seus membros irmãos entre si e filhos de um certo pai ou mãe (note-se que os deuses não precisam ter necessariamente pai e mãe, o que é até menos freqüente). Estes grupos são os chamados “catálogos” de deuses, listas às vezes bem extensas de filhos de um mesmo deus. Esses catálogos é que nos parecem proto-esquemas categoriais que já se afastam da narrativa, aproximando-se de um discurso de tipo predicativo, declarativo, ‘apofântico’. Note-se: não quaisquer catálogos, mas especialmente estes catálogos de deuses que preenchem a maior parte da Teogonia de Hesíodo. Há outros catálogos na poesia épica que não preenchem bem as características que aproximam do esquema categorial. Estas características são basicamente três relações mais ou menos explicitadas: Subordinação, Atribuição, Inerência. Nem todos os catálogos preenchem satisfatoriamente estas características, sendo apenas listas de elementos de um mesmo tipo ou gênero. Por exemplo, a listagem de navios e tribos e chefes apresentada no segundo canto da Ilíada de Homero é um detalhado inventário dos gregos que estão assaltando Tróia, inventário como a maioria dos textos em escrita pré-alfabética encontrados pela arqueologia. Não se trata de uma descrição dos gregos por suas características ou predicados, mas sim de apontar e reunir todos os gregos um por um, ou cento por cento, o que dá no mesmo. Os catálogos de deuses da Teogonia de Hesíodo têm outras características que os aproximam do discurso categorial. Primeiro, há a relação de subordinação entre pai e filhos, onde muitas vezes o nome do pai é um nome comum levado à condição de Antropônimo: como Terra, Céu, Mar; e onde muitas vezes também os filhos têm nomes que abarcam o campo semântico aberto pelo pai. Os filhos podem apontar efeitos, ou partes ou características do pai. Muitas vezes os filhos são explicitamente adjetivos de qualidade e não fica longe a relação de atribuição destes predicativos ao sujeito que é o pai. Temos de modo bastante claro um proto-esquema da relação categorial entre uma entidade subjacente e seus predicados.
Vejamos o exemplo do Catálogo das Nereidas que aparece
entre os versos 240 e 264 da Teogonia, na tradução de JAA Torrano, que tem
a vantagem de nos traduzir quase todos os Antropônimos das deusas
marinhas. Todas as deusas designam qualidades marinhas, praticamente todas são morfologicamente adjetivos femininos. Poderiam todas ser características do Mar, ou de uma região do mar. Pelos topônimos existentes (pelo menos quatro: Melita da ilha de Malta, Dádiva da Dória, Onividente de Pánope e Galatéia de Galate), essa região seria o mar Egeu. Nereu seria um deus dessa região, ou, quem sabe, um nome antigo do mar. Há, porem, uma pequena discrepância sintática nessa interpretação: é que Nereu é um nome masculino e todas as suas filhas são adjetivos femininos. Não é um problema tão grave, afinal poderiam ser as virtudes (aretai) do velho do mar assim como, na própria Teogonia, Zeus se une às virtudes que precisa para governar: Astúcia (Metis), Justiça (Themis), Magnanimidade (Eurynome), Fertilidade (Deméter), Memória (Mnemosyne), Resplendor (Leto), Zelo (Hera) etc. Aventuro, no entanto, uma outra hipótese, fruto de um detalhe próprio ao catálogo das Nereidas. É que este catálogo, de estrutura típica das genealogias hesiódicas, possui uma certa independência em relação à própria Teogonia, pois já apareceu em outro poema, a Ilíada de Homero, remontando talvez a uma tradição anterior a ambas. Talvez não apenas a uma tradição oral como as que compõem os cantos homéricos, mas até mesmo a uma tradição já escrita, visto que a estrutura de listas e inventários já aparece em vestígios de silabários pré-alfabéticos.
Vejamos a versão mais reduzida do Catálogo (com 33 em vez
de 50 Nereidas) no canto XVIII da Ilíada: O Catálogo da Ilíada tem um campo semântico mais restrito e mais consistente que o de Hesíodo, que parece ter acrescentado outros nomes femininos e marinhos até completar a cifra redonda de 50. Já, no canto XVIII, não há um nome de Nereida que não caia bem como nome de uma nau; fica claro porque então são todas qualidades no gênero feminino. Segundo essa hipótese, os nomes das deusas seriam predicados de cada nau e não qualidades de Nereu ou de uma região do mar. Mas, indiretamente, o campo semântico de uma frota de naus egéias acaba por descrever a vida, as atividades, as cidades, os recantos do mar. Nereu, pai dessas naus, quem seria? Um velho armador, um construtor de barcos, o proprietário ou comandante de uma frota? Nereu aparece na Teogonia como um ancião “sem mentira nem olvido” (apseudea kai alethea)? A sua afamada verdade seria fruto de uma grande perícia? Ou ainda, se pensarmos no contexto doloroso do pranto de Thetis em que as Nereidas aparecem, não poderíamos pensar num rito fúnebre em que várias naus naufragadas fossem liturgicamente invocadas num canto de despedida. Nereu, pai dessas naus, o destino infalível (Nemertes) que as traga para o fundo? Conjecturas... Conjecturas... O fato textual é que se estabelece uma lista de predicados, todos subordinados a um substantivo por relações que se aproximam da inerência e da atribuição. Essa estrutura de exposição de conhecimentos é que tendemos a ver como um proto-esquema categorial. Esse esquema vai ganhar a filosofia pelo Poema de Parmênides, onde serão expostos os sinais do ente (semata ton onton)– é o fragmento 8 do poema. Mas não cabe analisá-lo aqui.
Aristóteles, como filósofo que perscruta o dizer do ente,
numa tradição que provém de Parmênides, passando por Platão, apropriou-se
e explicitou ainda mais a estrutura de conhecimento cujo esquema já se dá
a ver nos catálogos hesiódicos. Mas suas categorias não foram
respigando-lhe a esmo. Elas seguem uma listagem tópica cujo registro
pertence aos primeiros discursos escritos – os discursos de acusação e
defesa dos tribunais. Assim, Aristóteles é bastante coerente ao designar
as múltiplas formas de dizer o ente com o termo “categoria” (kathgori/a).
O que é uma categoria no uso coloquial da língua grega? É uma acusação. A
palavra “categoria” é a realização, no grego coloquial clássico do séc. V,
da ação de acusar: kathgorei~n, feita por um promotor acusador: hó
kategorós. A acusação, além de “categoria” ,
também, normalmente, é designada simplesmente como “discurso” (logos).
Onde encontramos exemplarmente o uso destes termos é na Apologia de Palamedes
por ele mesmo, discurso do maior retórico grego do séc.V a.C., Górgias de
Leontini. Uma
“apologia”, ao pé da letra: “discurso (logos) a partir de (apó)”, é um
contra-discurso, quer
dizer, uma defesa a partir de uma acusação. Górgias, em seu discurso,
assume a personagem
de Palamedes, para rebater as acusações que lhe são impingidas. O seu
discurso é efetivamente
um discurso de desconstrução do logos do acusador (kaqhgorov"). Em uma de
suas
desconstruções apologéticas, Górgias rebate interrogando o acusador em sua
capacidade de
acusar:
O que o acusador aponta, senão justamente as categorias, nos termos mesmos
que
Aristóteles utilizará: pote, pou, pos — “quando”, “onde”, “como”?!
Acusar, pois, é apontar
as categorias! Apontar e mostrar os sinais que caracterizam a culpa (aitia)
do réu.
O que é, então, conhecer no discurso? Trata-se de apontar e mostrar os
sinais em que o
ente pode ser dito. O verbo “ser” não é uma mera partícula de articulação
copulativa, mas
desenvolve a ação concreta de apontar, assinalar, mostrar. O fundo
concreto de articulação
sintática é proveniente do ato de alguém (o falante) apontar sinais em
outrem (o “acusado”) Para enviar
comentários ao autor: Fernando Santoro
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