Francisco de Assis, o mais católico dos cristãos

Anderson dos Santos Moura

  Francisco nasceu em 1182; portanto, em fins do século XII; época dos profundos questionamentos sociais que iniciaram-se em meados do século XI. Esses questionamentos deram-se, sobretudo, no campo religioso. Enaltecia-se o ideal de pureza dos cristãos primitivos, numa espécie de "volta às fontes".

Filho de comerciante rico que era, Francisco conhecia das artimanhas do enriquecer a qualquer custo da burguesia emergente. Daí sua decisão de despojar-se dos bens que herdaria; fator decisivo, frente a sua conversão, e de toda sua vida apostólica. Em seu contato com as palavras das Escrituras, que lhe eram interpretadas pelos clérigos de então, pode-se notar um rigor muito grande sobre como observar as passagens, principalmente as do Evangelho. Algo que com grande exagero poderia ser comparado ao fundamentalismo do protestantismo americano, no século XIX; mas que visto com os olhos próprios da época, com suas inclinações ao ideal cristão primitivo, pode ser interpretado como a mais pura coerência.

Seu exemplo atraiu homens que quiseram seguí-lo e viver como ele - pelo menos os primeiros - e inspirados nele.

Permaneceu leigo, sem ostentar a honra de ser clérigo. Desprezo e desapego por honrarias que apresentou, também, ao rejeitar os estudos para si e para os seus; talvez por ter observado o quanto eram gananciosos e afastados de Deus, os comerciantes e contadores que trabalhavam com seu pai; ou, também, por achar que a intelectualidade levava a sobreposição de classes.

É difícil, hoje, fazer um estudo minucioso sobre Francisco de Assis, o homem; pois as fontes escritas, produzidas no século em que ele viveu (biografias, hagiografias), bem como as de tempo mais recente, estão carregadas do "São" Francisco que a Igreja consagrou e, também, das imagens que seus seguidores quiseram deixar para a posteridade. Por isso é que devemo-nos perguntar: Francisco foi uma pessoa especial, ou toda sua genialidade foi forjada?

Acredito que uma genialidade não pode ser forjada a esse ponto; contudo, não posso deixar de crer no "poder de mídia" que a Igreja tinha na época, que com certeza foi fator fundamental para a gestação do grandioso mito que se formou no imaginário popular.

Analisando Francisco, percebemo-lo tal qual o homem de hoje, e também o de outros tempos; isto é, carregado de influências e das modas de seu próprio tempo.

Francisco não foi inovador nos seguintes aspectos: o modo cortês, do ideal da cavalaria; eremitismo e peregrinação (antes de sua conversão); ideal de pobreza; preferência à vida laica; a volta ao ideal cristão primitivo; a pregação do Evangelho.

As fontes sobre Francisco colocam em evidência o quanto ele foi influenciado pelo ideal de cavalaria; através de suas manifestações eremíticas, peregrinas e penitentes, muito caras à cavalaria; bem como a idéia de igualdade entre os frades, quando os compara aos "cavaleiros da Távola Redonda". Mais evidente torna-se esta influência cavaleiresca quando sabemos que o então padroeiro de Assis (São Rufino), portanto venerável herói da cidade, era um combatente. Outro modo em que esse traço aparece em Francisco é quando no seu Testamento ele diz: "... E guardem sempre amor e fidelidade à nossa Senhora Santa Pobreza". Ora, era, também, parte do ideal de cavalaria o modo de cortejar a Dama (Senhora) de um Senhor mais poderoso. No caso de Francisco, este Senhor mais poderoso seria o próprio Cristo, esposo da Pobreza.

Francisco, no início de sua conversão, por volta de seus vinte anos de idade, pôs-se em peregrinação, um costume comum de sua época; depois optou pelo eremitismo, bem como o ideal de pobreza. Ora, estas experiências religiosas começaram a tomar força em meados do século XI, quase dois séculos antes do nascimento de Francisco, quando no Ocidente abria-se caminho a exigência de aprofundamento do campo religioso, e se observava um grande número de experiências que caracterizavam-se pela vontade de voltar à pureza original do cristianismo; porém, muitos desses grupos que se formavam como os Cátaros, Valdenses e Humilhados, não caminhavam conforme a orientação da Igreja; no exemplo dos Valdenses que, não respeitavam a proibição aos leigos de pregar e, por isso, foram considerados heréticos.

O enquadramento desses na heresia proporcionou a Francisco, quase meio século depois, reunir os ideais leigos de como viver o Evangelho, porém, intimamente ligados à instituição Igreja. Nesse sentido, sim, ele foi inovador. Ganhou, inclusive, como leigo, a permissão para pregar.

Ao contrário dos primeiros grupos e, creio eu, consciente dos erros e insucessos destes, procurou executar sua missão apostólica com o aval da Igreja. Missão apostólica esta que realizou no meio urbano, onde estava se formando uma considerável população. Enquanto outros grupos de penitentes viviam isolados no meio rural, ele optou por viver em contato com as cidades, nos subúrbios que se formavam, atendendo assim às novas aspirações, espirituais e demográficas.

Francisco aceitou as imposições da Igreja, então sobre o papado de Inocêncio III; que com destreza, elevou ao auge o poder papal; e soube perceber a necessidade da Igreja de adaptar-se aos novos tempos, frente aos quais deveria se manter. Por isso, usou da diplomacia e tentou ao máximo cooptar os grupos e movimentos religiosos, de caráter laico, que surgiam.

Francisco foi, por orientação da Igreja, levado a preparar uma Regra para sua recém-fundada Ordem; mas não achava necessária uma Regra, pois o Evangelho por si só já bastava, porém, teve que ceder para se adaptar às imposições da Igreja. Francisco, bem como o seu movimento, foi absorvido pela Igreja sim. Deixou-se influenciar, mas também influenciou. Francisco no seu caminho de adaptação à essas normas e consequente institucionalização da ordem; e a Igreja no seu projeto de adaptação e abertura ao laicato, tornaram-se intrínsecos. Os dois lados tiveram que ceder.

Foi, sem exagero, um grande marco da história cristã; devido ao apelo popular que representou; num momento que a Igreja sofria profundos questionamentos e que ao mesmo tempo arquitetava sua supremacia, em meio uma adaptação estrutural, que incluía relativa abertura aos leigos. Por isso, várias pessoas o seguiram; e ainda hoje, existem grupos inspirados em sua espiritualidade, nos vários níveis da vida religiosa e laica.

Francisco, no meu ver, representa uma opção particular do seguimento de Cristo; foi o mais católico dos cristãos. O rumo que sua ordem de seguidores tomou, fugindo assim dos seus ideais mais particulares, pode tê-lo enchido de desgosto, mas isso aconteceu porque esses ideais começaram a receber influências externas a ele; e passar, de um plano pessoal, para um plano coletivo. Afinal, uma ordem não se faz de um homem só; por mais "santo" e inspirador que ele seja.