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Alma e
Instinto: portugueses e brasileiros escrevem a história
natural das colônias*
Oswaldo Munteal Filho
Doutor em História Social IFCS / UFRJ
Professor do Departamento de História UERJ / PUC-Rio
Pesquisador do Arquivo Nacional
O meu espaço de Liberdade é o mapa de Portugal,
subentendido na folha de papel onde escrevo.
Miguel Torga (Diário)
O escritor português Miguel Torga convida, na sua obra
contemporânea, e especialmente em seus Diários, a um
passeio imaginário por Portugal. Torga nos apresenta um
percurso da aventura lusíada desde os trás-montanos aos
minhotos, ao Douro, às Beiras, ao passado coimbrão, à
Lisboa ultramarina dos cruzados e dos mouros, e à cidade
peninsular/européia, e, afinal, converge para as
fundações da nacionalidade portuguesa de d. Afonso
Henriques, para chegar aos alentejanos e algarvios, neste
caso o Oriente criado pela península ibérica, região
fundadora do cisma Ocidente/Oriente desde 711.Este é o roteiro ideal, típico dos ensaístas
luso-brasileiros de diversas épocas, daqueles cuja a
perspectiva do historiador não é necessariamente a
dominante e, de certa maneira, o entendimento acerca do
significado e alcance de Portugal, ao longo da sua
modernidade do século XVI ao XVIII, acaba por
transcender à prática historiográfica. Entre os
intelectuais que habitam diversas tradições teóricas,
como nos casos de Alexandre Herculano, António Sérgio e
Oliveira Martins, pontifica a reinterpretação da
história portuguesa à luz de uma civilização ibérica
emergente e de um país que morreu ao nascer e viveu a
imitar os outros. Portugal teria acabado no século XVI e
a obra os Lusíadas seria um epitáfio.
Entender o lusitanismo nas suas
'origens' e na sua 'integralidade' pareceu ser sempre uma
intenção, um desafio intelectual, uma meta, um objetivo
quase inalcançavel. Em um episódio de grande
dramaticidade para a história da modernidade ibérica, o
historiador português João Lúcio de Azevedo, em A
evolução do sebastianismo, propõe que Ninguém
acredita já que d. Sebastião venha a ressucitar, mas
poder-se-á dizer que desapareceu de todo o
sebastianismo? Nascido da dor, nutrindo-se da esperança,
ele é na história o que é na poesia a saudade, uma
feição inseparável da alma portuguesa.
A engenhosa e complexa tarefa de
analisar a dinâmica das relações coloniais remete a um
conjunto de reflexões de Fernand Braudel, em sua
Identidade da França, acostumado ao estudo minucioso dos
grandes processos e das continuidades e permanências,
define que cabe ao historiador pegar a estrada, e com os
próprios olhos inventariar a diversidade, interpretar a
partir da paisagem, procurar a divergência, o contraste,
a ruptura e a fronteira. Mobiliza-me e me impulsiona a
tentar perceber a singularidade e a originalidade da
cultura despótico-científica luso-brasileira a partir
da experiência atlântica. Quero aqui retomar a
dimensão do processo de interconexão transepocal do
Estado português com o continente europeu nos termos das
relações de troca comerciais/culturais que envolveram
as principais potências européias à época da secular
modernidade européia. Devo marcar muito especialmente o
espaço-tempo setecentista, em seu último quartel,
quando então foram intensificados os projetos de
promover a consolidação de uma cultura científica, que
vinha sendo vivida de uma forma instintiva, e revestida
de uma certa alma ou espírito aventureiro, que soldou as
relações Lisboa-Império marítimo desde os primórdios
da exploração e descoberta ultramarinas.
Remeto-me, no plano do que foi dito
anteriormente, a um olhar sobre algumas possibilidades de
entendimento acerca do Portugal moderno a partir de três
coordenadas: 1- a ruptura com o isolamento cultural
tendencialmente secular dos portugueses relativamente a
Europa da alta cultura e da ciência moderna. 2- a
cultura científica propriamente dita da ilustração
mariana e joanina e as suas linhas de força. 3- a
política fomentista que tudo ancorava e inspirava no
campo do pensamento e da ação do Estado luso.
A 'aventura' especulativa portuguesa da
segunda metade do século XVIII, e muito especialmente ao
longo do período mariano, teve como principal
experiência a elaboração de um projeto denominado
História Natural das Colônias. Este esforço voltou-se
para o sentido de uma profunda descrição da metrópole
e do império colonial ultramarino, tanto Portugal
continental - ocidentalizante e moderno -, quanto o
atlântico, prenhe de riquezas, oriental e
desinstitucionalizado.
Não seria possível esta 'aventura'
sem as viagens ao Novo Mundo, as imaginárias, como as do
intelectual ilustrado Domenico Agostino Vandelli, que as
planejava porém não embarcava para a conquista
novomundista, ou as 'reais', representadas pelas ações
do viajante e naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira,
que colaborou diretamente para a redescoberta científica
da América portuguesa nos setecentos.
A história natural das colônias
dependeu de uma densa revolução intelectual nos
círculos letrados luso-brasileiros, articulada ao
empreendimento prático e editorial lusitano centrado no
estudo da natureza colonial, e na divulgação das
propriedades do mundo silvestre das criaturas brutas. O
movimento que resultou no recenseamento metódico das
potencialidades naturais afro-asiático-americanas
originou-se na viragem luso-brasileira para o
racionalismo.
A história propriamente dita para os
portugueses e brasileiros, inspirados pelo cientificismo
das Luzes, relacionava-se à capacidade desta disciplina
de recuperar, de uma forma descritiva e seletiva, os
tempos gloriosos de Portugal. O desafio do 'encontro' com
a natureza desnudada pelo método não representava uma
novidade para os naturalistas que descrevem, traduzem,
classificam, viajam, sonham, remetem produtos de uma
ponta à outra do império, dissecam e dominam o mundo
natural. A história da história natural das colônias,
feita de alma e instinto, era contada a partir da
descrição pura e simples dos fatos, entrelaçada à uma
concepção empírica da natureza. O mundo natural
apreendido pela aventura quinhentista, integrou a
história crônica, para paulatinamente, ao longo do
século XVIII, pertencer ao núcleo do conhecimento
empírico e assimilável por um conjunto mais amplo de
homens.
A originalidade do pensamento
luso-brasileiro constituiu-se também na sua
previsibilidade se considerarmos a dificuldade dos
portugueses em removerem, o que o historiador José
Sebastião da Silva Dias chamou de obstáculos
epistemológicos, promovendo rupturas sucessivas com o
passado até o momento de um contato seguro e perene com
a cultura letrada continental. Os intelectuais ilustrados
comprometeram-se com o estudo de diversos temas, que
sempre acabavam por receber um tratamento que
descortinava alguma utilidade no objeto escolhido. Os
luso-brasileiros estudavam o uso das forças da água do
mar no movimento das máquinas, assim como examinavam o
modo mais fácil para a exploração das propriedades das
batatas, e a utilização racional dos terrenos visando o
aumento da produção agrícola.
Cada 'capítulo' da história natural
das colônias, divulgado de uma maneira geral nos
impressos e coleções de Memórias da Academia Real das
Ciências de Lisboa, tratava de uma capitania ou área
mais extensa do império ultramarino, enfatizando o
relevo, as condições fluviais e perfil dos habitantes.
Todos estes aspectos eram valorizados em função do fato
de que os naturalistas desvelevam concretamente, nas
viagens marítimas, as experiências que potencialmente
podem ser realizadas no universo vegetal da América
Portuguesa, da África ou da Índia.
Os bosques também constituíam uma
preocupação dos naturalistas-utilitários que se
agregavam em torno dos estabelecimentos especulativos em
Portugal e nas colônias, como pode ser percebido numa
Memória de Joaquim José Lobo da Silva, sobre a
utilidade dos estudos que dizem respeito à conservação
das matas, florestas e bosques. A curiosidade dos
memorialistas luso-brasileiros e dos 'espreitadores' da
natureza pela flora e fauna do Novo Mundo português,
longe de constituir qualquer vestígio de gênese de um
pensamento ecológico - o que se converteria num brutal
anacronismo - não aparece tampouco identificada com uma
espécie de encantamento romântico pelo intocado mundo
natural das colônias criado por Deus, e que, na visão
de mundo dos reformistas da época, por ser maravilhoso
deve ser contemplado. A preservação não é
necessariamente um valor em si, ou mesmo encarado pelos
naturalistas-viajantes como um gesto humanístico. A
proteção ao reino vegetal deveria estar sob a hegemonia
da engrenagem monopolista, tendo em vista os interesses
da Coroa portuguesa, paralelamente a idéia de proteção
à natureza estava vinculada à capacidade de ação do
homem e do Estado secular, rompendo progressivamente com
uma tenaz concepção de mundo transcendente entre os
ibéricos.
A partir do cenário mais global e
examinando caso a caso as províncias ultramarinas,
podemos supor uma determinada intencionalidade do Estado
luso diante das transformações declaradas pelos
burocratas metropolitanos como essenciais, para a
recuperação do reino e dos domínios. As coleções de
narrativas e de descrições da natureza mineira
consagram duas formas de escrita: o relato empírico e o
tipo de redação sob a forma de Memórias que
acompanhavam a história do império ultramarino ao longo
do século XVIII.
O enfoque dos relatos pragmáticos recolhidos pelos
riscadores, botânicos e exploradores do mundo natural da
capitania das Minas Gerais, determinam um lugar para os
mineiros no contexto do movimento dos homens, das idéias
e das especiarias, no sentido conferido por Russel-Wood
em sua obra sobre a multifacética e orgânica conquista
territorial lusa. A partir de estudos mais pormenorizados
sobre os registros documentais da natureza mineira,
pode-se afirmar que esta se apresenta fragmentada,
diversificada e estratificada em suas propriedades. Cada
capitania que era revelada na América portuguesa, novos
significados eram atribuídos para as
especiarias/mercadorias, para o gênero/produto, e para a
própria noção espacial de descobrimento/fronteira
(conquista do litoral/investigação minuciosa do
interior).
A idéia de um novo renascimento
científico e de um descobrimento metódico do
território americano conformou uma nova história da
natureza na capitania das Minas Gerais, sob a forma de
recomendações cotidianas, ofícios, Memórias, Projetos
e sobretudo precisas instruções, que se converteram em
resíduos das orientações que partiam de Lisboa com
vistas ao procedimento taxonômico de rotina exigido pela
Coroa, que só tendeu à aceleração com a falência de
outros mecanismos de sobrevivência do monopólio.
* Estas breves tomadas de posição
estão relacionadas às minhas reflexões a partir da
pesquisa A Capitania das Minas Gerais e a História
Natural das Colônias no século XVIII, que venho
desenvolvendo entre julho e dezembro de 1998, com o
financiamento da Fundação João Pinheiro-MG / FAPEMIG.
Agradeço a seguir o empenho e o prossionalismo dos
membros da equipe de pesquisa que coordeno: a
pesquisadora Mariana Ferreira de Melo (UERJ-FFP / Rede
Pública do Estado do Rio de Janeiro) e aos assistentes
de pesquisa Flávia Maria de Carvalho (UERJ), Lúcia
Garcia (UERJ), Manoel Cândido Domingues (UFMG), Maria
Pia Beaklini Baffa (PUC-Rio) e Monique Sochaczewski
(UERJ). Agradeço o apoio e as valiosas sugestões da
profa. dra. Júnia Ferreira Furtado.

Esta é uma iniciativa de alunos do
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e este é
um espaço público onde todas as colaborações
políticas, acadêmicas e artísticas são bem vindas.
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