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Policarpo Quaresma: Herói do Brasil?

Luiz Cristiano O. de Andrade
Aluno do 8° período de História da UFRJ

O filme Policarpo Quaresma, Herói do Brasil tem suscitado diversos debates na imprensa, nos quais, o personagem de Lima Barreto é tratado positivamente como um nacionalista. Nossa intensão neste pequeno artigo é atentar para algumas questões presentes no livro e que não chegaram à tela, principalmente a que se refere ao nacionalismo. Obviamente não condenamos a “falta de fidelidade ao romance”, como se fosse possível eliminar as apropriações de um texto e também a relação histórica entre o livro e o leitor, desvelando assim o sentido da obra, universal.

O Jornal do Comércio, edição da tarde, iniciaria a publicação de Triste Fim de Policarpo Quaresma no ano de 19111. Lima Barreto o escrevera no ano anterior, após a campanha civilista, pela candidatura de Ruy Barbosa, derrotada pelo hermismo. Os militares novamente estavam no poder, e o escritor não desperdiçaria tal oportunidade. Segundo Sevcenko2, as ideologias intolerantes representam o tema principal do romance. Deste modo, Lima condena o jacobinismo, que tem seus seguidores descritos como “intransigentes, a cujos olhos, a moderação, a tolerância e o respeito pela liberdade e a vida alheias eram crimes de lesa-pátria...”3; o republicanismo; o “nefasto e hipócrita positivismo, ...que justificava todas as violências, todos os assassínios, todas as ferocidades em nome da manutenção da ordem...”4;e o florianismo.

O Marechal de Ferro é completamente desmistificado. Sua fisionomia não revelava “nenhum dote superior”, a qualidade predominante no seu caráter era a 'tibieza de ânimo”, e no seu temperamento, “muita preguiça”. A própria identidade do Exército, construída a partir da Guerra do Paraguai, é ironizada através do personagem General Albernaz, que durante sua carreira não viu uma única batalha, mas sempre contava episódios da guerra.
Poderíamos ainda vislumbrar outras questões. A hiper-valorização do casamento, objetivo único das moças de então, simbolizada na personagem Ismênia. O tratamento dispensado aos doutores, que é discutido através de Armando Borges, sempre citado como o “marido de Olga”. O doutor “julgava o seu título um foral de nobreza”5, entretanto não conseguia ler um livro além da quinta página.

Os primeiros anos da república foram marcados por intensas lutas de representação da nação. De acordo com José Murilo de Carvalho6, a imagem construída pela elite política e intelectual neste período caracterizou-se, principalmente, pela visão negativa do povo. O projeto de reconstrução da identidade nacional, assim como o anterior, teria a Europa como paradigma de civilização. Destarte, a maioria da população, composta por negros e mestiços, seria vista - pelos homens da Sciência como Sylvio Romero, Nina Rodrigues e João Baptista de Lacerda – como degenerada. A curto prazo, a solução seria a imigração de braços europeus, que substituiriam os “preguiçosos” do país. A longo prazo, a solução seria o progressivo branqueamento da população7.

Se estes discursos predominaram, também não foram poucas as vozes discordantes. Lima Barrreto explora o tema no personagem de Policarpo Quaresma, que procurou a essência da brasilidade na modinha, no guando, e até na parati, o aperitivo genuinamente nacional. Ainda neste sentido, estudou os costumes tupinambás, e fez o requerimento para que o Congresso decretasse o tupi-gurani a nossa língua oficial.

Por um lado, as tentativas de Quaresma representam a possibilidade de um projeto menos excludente de nação, que valorizasse a cultura local, e não copiasse, pura e simplesmente, modelos externos. Por outro, são uma ironia ao arquétipo romântico, construído anteriormente por Gonçalves Dias, José de Alencar, etc.

No final, entretanto, Policarpo se decepcionou com o tupi, causa de sua internação no hospício; com a agricultura, pois nossas terras não eram férteis como diziam os livros, além do governo não dar apoio ao pequeno agricultor; com a nossa gente, que não era tão dócil, e que matava inúmeros prisioneiros. No calabouço, preso, Quaresma se dedica a refletir a questão de sua vida: “A pátria que quisera ter era um mito; era um fantasma criado por ele em seu gabinete”8. Era uma ilusão que havia norteado sua vida, e então lembrou-se “de que essa noção nada é para os Menenanã, para tantas pessoas...”9.

Revendo a história perguntou-se como poderia sentir a pátria um homem que vivesse quatro séculos sendo francês, inglês, etc? Lembrou-se da Alsácia, que num dado momento, era, para o francês a terra dos seus avós, e, em outro momento já não era mais. Citou o nosso caso da Cisplatina e concluiu que “certamente era uma noção sem conscistência racional e precisava ser revista”10.

Policarpo então se arrependeu. Ele que havia tentado mudar o país, que não se interessou no dinheiro que seu sítio poderia ter lhe rendido, só queria dar o exemplo à nação -esta invenção dos tempos modernos - estava ali, preso, perto de seu triste fim. Na visão de Lima Barreto, só os arrivistas e medíocres triunfavam na República.

1 O livro só seria lançado em fevereiro de 1916 com recursos do próprio autor. Nesta época, os militares incentivavam as palestras de Olavo Bilac, a favor do serviço militar obrigatório e pela entrada do Brasil na guerra ao lado dos Estados Unidos. Lima era contra.
2 Sevcenko, Nicolau – Literatura como Missão. Tensões Sociais e Criação Cultural na Primeira República. Ed. Brasiliense, São Paulo, 1995.
3 Barreto, A. H. de Lima – Triste Fim de Policarpo Quaresma. Ed. Ática, São Paulo, 1994, p.138.
4 Idem , p. 121.
5 Idem , p.93.
6 Carvalho, J. M. – “Brasil: Nações Imaginadas”, in: Revista Antropolítica, v.1, n.1, jan / jun. 1995.
7 Cf. Seyferth, Giralda “A Antropologia e a Teoria do branqueamento da Raça no Brasil: A Tese de João Batista de Lacerda”. in: Revista do Museu Paulista, v.XXX, 1985.
8 Barreto, A. H. de Lima, op. cit. , p.175
9 Idem, Ibidem.
10 Idem, p. 176.


Esta é uma iniciativa de alunos do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e este é um espaço público onde todas as colaborações políticas, acadêmicas e artísticas são bem vindas.