REALIDADE: um breve histórico
Revista mensal, fundada por Victor Civita, em 1966. Um dos traços mais característicos desta revista foi sua proposta em promover um jornalismo que fosse além do relato da notícia, para tanto a revista deveria empenhar-se em compreender a realidade (em diversos campos), e contribuir para que seus leitores também à compreendessem.
Neste esforço de constante pesquisa, a revista produziu textos que procuravam o entendimento dos assuntos políticos, econômicos, sociais, esportivos, cotidianos e comportamentais da sociedade brasileira. Esses textos tinham enquanto característica básica a tentativa de criar a polêmica, em geral apresentando diferentes abordagens sobre um mesmo tema, levando seus leitores à reflexão, fosse concordando ou não com as suas posições e análises. Um outro instrumento valioso neste afã foi a fotografia - entendida enquanto uma poderosa ferramenta pela qual se revelava os contorno do mundo "real". O fotojornalismo realizado por Realidade também foi empregado enquanto meio de desafiar os limites impostos pela censura.
As primeiras edições de Realidade constituíram-se em preocupações constantes para a censura, logo sofreria com os cortes da censura, seu número 10 (de Janeiro de 1967) que publicou diversos artigos e fotografias sobre a condição e transformações sociais da mulher brasileira, foi apreendido por ordem do Juizado de Menores da Guanabara e São Paulo.
Em 1968 a revista seguindo uma orientação jornalística que desafiava constantemente as ameaças de censura e apreensão, procurou retratar e informar em profundidade as transformações que ocorriam tanto no mundo como no Brasil. Publicou reportagens sobre os "hippies"; entrevistou um vietcong condenado à morte e o líder político Carlos Lacerda que falou sobre a importância da Frente Ampla para a redemocratização do Brasil; publicou trechos dos Diários de Ernesto Che Guevara e mergulhou entre as tendências que faziam parte da clandestina União Nacional dos Estudantes (UNE), entrevistando seus principais líderes, entre eles Vladmir Palmeira e Luís Travassos; debateu o racismo na sociedade norte-americana e enviou um jornalista aos campos de batalha do Vietnã. Por fim Realidade fez uma entrevista exclusiva com Luís Carlos Prestes, então presidente do Partido Comunista Brasileiro.
Diante desse conjunto de temas, Realidade não se detém apenas nas reportagens, entrevista e fotografias. Os recursos de ilustração e fotomontagens também costumavam ser bastante usadas. Citamos como exemplo, as reportagens sobre o racismo nos Estados Unidos, sobre o antiamericanismo no Brasil e a pesquisa sobre O Pensamento do Congresso Nacional, todas entre os anos de 1967 e 1968. Em todas elas Realidade procurou criar imagens que ao serem interpretadas pelos leitores, ao mesmo tempo que os informasse, também expusessem alguns pontos de vista da própria revista.
Outra questão importante era a filosofia jornalística que perpassava em Realidade. Como era pretensão da revista informar os acontecimentos tal como realmente ocorreram, os repórteres, para escreverem sobre um determinado evento, via-de-regra tinham que ir até onde esses acontecimentos estavam ocorrendo (seja em Moscou, nos Estados Unidos, no Vietnã, no Haiti...) para aí sim poderem escrever sobre o tema já pesquisado. Exemplo dos mais nítidos e também dramático desta filosofia de jornalismo foi a reportagem de Hamilton Ribeiro sobre a guerra do Vietnã. Na capa da revista a foto do repórter sendo socorrido após a explosão de uma mina que amputou-lhe a perna esquerda. Seguem na reportagem cerca de 12 páginas em que o repórter narra toda aventura e drama que viveu na guerra.
Estas concepções jornalísticas da revista não foram entretanto uniforme ao longo dos seus 10 anos de existência (ela foi extinta em 1976). Podemos afirmar que ela perdurou apenas em seus 2 primeiros anos, isto é, até 1968, diferenciando-a dos demais veículos contemporâneos. No início de 1969 as alterações surgidas no cenário político com a implantação do Ato Institucional N° 5 (AI-5, em 13 de dezembro de 1968) , e também no interior da editora Abril, com o empenho na consolidação da revista semanal Veja - lançada em setembro de 1968 - enquanto principal projeto jornalístico da editora, promoveram modificações que alteraram a fisionomia e estilo de Realidade, transformando-a em uma revista cada vez menos polêmica, e mais adequada aos limites do jornalismo permitido pelo regime militar.
Devido essas mudanças ocorridas na linha editorial e na proposta jornalística da revista a partir de início de 1969, é que nos detivemos, nesta pesquisa, apenas nas características da revista ao longo dos seus dois primeiros anos de existência.
Edição apreendida em janeiro de 1967
REALIDADE durante o ano de 1968